O Uso Racional de Medicamentos e a Razão das Indústrias Farmacêuticas

Falamos em redes, rizomas, agenciamentos. Falamos em um poder que não pertence a alguém, nem habita alguém (ou é habitado por). Falamos em um poder que se dá nas relações, descentralizado, de maneira que todos somos produtores do sistema no qual vivemos. Todos somos usinas dos processos maquínicos de produção de subjetividade, e falamos tanto nisso que tomara que saibamos do que estamos falando. Falamos também no uso dos discursos do saber médico, do quanto não somos vítimas, do quanto não há meros vilões a culpabilizar, e do quanto fazemos parte das redes através das quais o saber médico se fortalece e se expande em nossa sociedade. Nietzschianos que somos, falamos em resistências que não sejam vingativas, reativas, buscamos problematizar sem moralizar, e assim abordamos a medicalização e a medicamentação.

No entanto, não somos preguiçosos em nossas cartografias, e não vamos cair nos micro-fascismos de planificar os processos, ricos em relvos, que cartografamos. Não podemos, portanto, deixar de dizer também que a medicamentação crescente de nossas vidas, apesar de não ter causação unívoca, também não é efeito de diversos vetores de mesmo valor e natureza. São diversos os fatores, e quando algum deles se faz onipresente, quando se insere nesta rede por todos os cantos e de maneira enfática, permeando determinado agenciamento “por todos os poros”, convém que nele nos detenhamos.

A palestra do Subsecretário de Gerenciamento de Projetos da Secretaria Estadual de Saúde, Silvio Machado, ocorrida no dia primeiro de outubro de dois mil e dez, com o tema “Política Farmacêutica no Contexto da Cultura da Pílula

e da Mercadização da Saúde“, nos chamou atenção principalmente pela forma como ele apresentou o conceito de “Uso Racional de Medicamento”. Achamos que uma forma interessante de abordar este tema seria problematizando as intervenções das indústrias farmacêuticas, em todas as etapas envolvidas na vida de um medicamento, para a reflexão: Existe algum uso de medicamento, neste contexto, que possa ser denominado “Racional”?

Não podemos negar que, por mais que nossas ações influenciem positiva ou negativamente os efeitos das propagandas de remédio, a mídia tem um poder de grande peso na produção das subjetividades medicamentadas que consumimos com freqüência. As indústrias farmacêuticas influenciam a escolha do consumidor, da população de usuários dos serviços de saúde, que muitas vezes já vão a um atendimento clínico na expectativa de receber a receita do remédio tal. E se um médico se recusa a obedecer prontamente a tal demanda, a fila anda.

Ainda há os representantes das indústrias, com seus catálogos atraentes e retóricos, pagos para buscar convencer aos médicos de que aquele remédio (mas EXATAMENTE o daquela marca) é cientificamente mais apropriado para aquele quadro clínico (mesmo que nada de fato embase tal afirmação no quadro da ciência), e que pra ajudar, ainda o médico fica com uma parte de cada remédio por ele receitado. Atraente e retórico!

Estes médicos também participam de congressos científicos, e não só o Silvio Machado mas também o Sérgio, quando esteve conosco em uma de nossas aulas, falaram sobre os Speakers. São profissionais contratados pelas indústrias farmacêuticas para fazer falas em congressos científicos, em auditórios cheios, no momento de perguntas de alguma palestra, e em suas falas tendenciosamente “vender um peixe de determinado PRODUTO”. Além disso há os stands, os brindes, e mesmo empresas que PAGAM A IDA DE CERTOS PROFISSIONAIS A DETERMINADOS CONGRESSOS! Ou seja, eu sou um médico, por exemplo, e quero ir a um congresso de Neurologia? SIM! A empresa fulana vai CUSTEAR minha participação no congresso. E esse bombardeamento de intervenções não vai interferir na prescrição?

Por fim, mais um exemplo de “noise” no processo: As empresas farmacêuticas financiam determinados experimentos, sobre determinadas doenças ou sobre determinados medicamentos, e as pesquisas apontam que determinados medicamentos são os mais indicados para determinadas doenças. Adivinha quem fabrica o remédio que tal pesquisa indica? A INDÚSTRIA QUE FINANCIOU O MEDICAMENTO. Nem mesmo dos dados científicos que embasariam determinados medicamentos podemos esperar total isenção dos interesses econômicos das indústrias que os fabricam.

Como posso fazer um uso racional de um medicamento se há uma (ou melhor, umas muitas) interferência(s) da fabricante na minha escolha do medicamento (através da mídia), na prescrição (de diversas formas, através do médico) e até mesmo no embasamento científico (através do financiamento de pesquisas).

Para piorar as coisas, as agências reguladoras, que decidem qual remédio está apto ou não ao CONSUMO (ou outras agências, como as que determinam quais remédios o estado vai dispensar – federal, estadual ou municipalmente), aprovam ou não certos medicamentos pondo critérios políticos acima de critérios técnicos. Por mais que estudos técnicos não tivessem comprovado que o Viagra se aplicava aos critérios demandados pela saúde brasileira, o alarde midiático foi tão grande, que a ANVISA se submeteu (como chegamos a discutir) ao papel de antecipar a sua aprovação. Quem decide não é quem dá o parecer, é quem ocupa o cargo de gestão, que é cargo permeado por esta dimensão do interesse econômico.

Se não nos atentarmos para o grande peso que este aspecto tem nos fenômenos da medicamentação, perdemos o bonde do “O que podemos fazer para fazer frente às descontroladas formas de consumo coletivo de remédios que imperam em nossa sociedade”. Será que os conselheiros de saúde de nosso estado e de nossos municípios têm pensado estes temas? Será que têm conhecimento do que as agências reguladoras responsáveis por essas tarefas têm decidido? Será que a população está ciente da atuação de seus representantes nos Conselhos de Saúde (e influenciando tal atuação)?

O debate se dá por todos os cantos, como o que tem ocorrido em nosso país sobre democratização da mídia. E para democratizar, não devemos deixar ainda mais centralizada nas mãos dos poucos que detém os grandes meios. A proposta é que a população controle democraticamente o funcionamento da mídia, e isso dá à população o direito de questionar se a publicidade de medicamentos é uma boa forma de financiar os meios de comunicação que, constitucionalmente, deveriam cumprir “função social”.

Outro debate interessante é sobre a entrada de capital privado em instituições de ensino e pesquisa públicas. Quando uma Universidade Federal, por exemplo, cede seu nome a uma pesquisa financiada por empresa privada (e tal financiamento compromete seu resultado desde o início) está legitimando uma etapa de cadeias de produção perigosas como a que queremos pôr em questão neste post. Não só na área dos medicamentos, a pesquisa pública não é garantia, mas é um fator importante para que caminhemos rumo à garantia de que o conhecimento produzido estará a serviço da população, dos usuários, e não do grande capital.

Esperamos que este atrasado post contribua para nos fazer pensar sobre a racionalidade no uso de medicamentos, e que este pensar esteja intimamente unido ao nosso agir. Uso racional não é uso sem emoção. O que aceitamos chamar pelo nome de uso racional é um uso pautado em critérios ética, estética e politicamente afinados com nossos compromissos em psicologia. Em uma psicologia da transformação. E a sanha acumuladora das indústrias farmacêuticas não está no rol das aliadas com as quais nos é possível compor redes.

 

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Uma resposta para “O Uso Racional de Medicamentos e a Razão das Indústrias Farmacêuticas

  1. Excelente texto, mas não tem o nome dos autores. beijos

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