“Projeto de Pesquisa – Autonomia de direitos humanos na experiência em primeira pessoa de técnicos e usuários em serviço de saúde mental: a experiência da Gestão Autônoma da Medicação (GAM)”. (Discussão da aula do dia 08/11/2010)

Em um contexto de Reforma psiquiátrica, deu-se início, a partir de um movimento social no Canadá, a Associação dos Grupos de Atendimento em Defesa dos direitos em Saúde Mental do Quebec (AGIDD-SMQ). O propósito dessa iniciativa é a problematização do uso da medicação psiquiátrica, em que se procura dar maiores informações aos usuários no que tange aos medicamentos utilizados, seus efeitos indesejáveis, e também não correlação do uso dos medicamentos com a melhoria de vida. Essa associação criou uma cartilha contendo essas informações e divulgou-a junto a população com problemas de saúde mental. Serviços alternativos do Quebec tem apoiado a Gestão Autônoma de Medicação com a disponibilização de atendimentos diversificados a essa população, em que se procura trabalhar para abrir um espaço de fala em torno da medicação.

O projeto de pesquisa multicêntrico UNICAMP-UFF-UFRJ-UFC está desenvolvendo um trabalho que visa à implantação da Gestão Autônoma da Medicação nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) da rede pública de saúde. O objetivo desse projeto é “investigar, no contexto da reforma psiquiátrica brasileira, como a prática de prescrição e a experiência de uso dos psicofármacos pode ser vivida em um dispositivo de fomento da autonomia e da defesa dos direitos dos usuários nos CAPS” (texto do projeto).

Discute-se que o projeto canadense, além de estar desvinculado às políticas estatais, possui os seguintes objetivos com o trabalho: informação; problematização; e a desmedicalização dos usuários. O projeto realizado no Brasil diferencia-se, inicialmente, por ser uma proposta de trabalho na rede pública de saúde, além de intencionar a criação de uma co-gestão entre técnicos, usuários do serviço, especialistas e pesquisadores.

Esta co-gestão se daria em um momento em que é trazido para o grupo a experiência em primeira pessoa sobre o uso da medicação, como um dispositivo coletivo. Sobre essa experiência é importante fazer uma diferenciação, em que não se trata apenas da experiência de vida, no sentido de situações e conhecimentos vividos, mas também de uma experiência que ultrapassa aquilo que é apreendido do meio. Essa experiência deixa em suspenso o discurso normatizante para trazer à tona a elaboração do sujeito sobre o que é experienciado.

Com essa proposta objetiva-se dar voz ao sujeito que toma a medicação, em que importa produzir sujeitos de direitos e autônomos. Acredita-se que, a partir do momento que sujeito toma posse dessa experiência, produziria esse lugar de sujeito de direito e autônomo. Em que não é mais o especialista que fala “pelo” sujeito, mas sim ele falando por si mesmo. A autonomia que se trata aqui é no sentido de uma possibilidade de diferenciar-se, ter capacidade de se gerir e gerir o mundo.

Dessa forma, foge-se da concepção de um coletivo como normatização, em que se objetiva tornar iguais. Fala-se, por sua vez, de um coletivo em que as diferenciações produzem uma coletividade em que essas diferenças co-existam nos espaços.

Esse grupo não possui uma finalidade, como o projeto canadense, uma vez que se parte da idéia de que não se sabe o que irá surgir da experiência desses sujeitos. Essa idéia nos faz questionar relações de poder que estão colocadas nos mais diversos espaços, em que não se pergunta até onde uma pessoa, dita especialista, pode dizer SOBRE a experiência do outro. Nós mesmos não sabemos o quanto esse saber especialista foi incorporado por nós, ou seja, não sabemos identificar o que é da nossa experiência e o que foi dito sobre ela.

  • Trazemos aqui trechos do filme: “O Solista” (Diretor: Joe Wright)

Filme O Solista

Jussara Soares e Vanessa Fiorotti

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s