“Aparição do Viagra na cena pública brasileira: discursos sobre corpo, gênero e sexualidade na mídia” (discussão da aula do dia 27/09/2010)

Ao pensarmos na chegada do Viagra ao Brasil em 1998 e o seu apelo midiático, podemos observar um mecanismo comum não só em produtos médicos, mas que é bem próprio do capitalismo moderno – a geração de mercado de consumo antes da comercialização propriamente dita. Um exemplo muito parecido aconteceu com a chegada da TV ao Brasil, muitas pessoas correram para comprar seus televisores na década de 50 quando nem existiam transmissoras no país, sendo assim as pessoas tinham a TV, mas não tinham imagem para ver. Porém, sendo o Viagra um medicamento e, mais que isso, um medicamento ligado diretamente ao funcionamento sexual, temos algumas questões a serem pensadas.

De acordo com Brigeiro & Maksud em seu artigo sobre a chegada do Viagra ao Brasil, esse medicamento foi alardeado como um elixir da juventude, uma solução para as “falhas sexuais” responsáveis pela tristeza e insatisfação advindas de uma vida sexual deficitária. Assim podemos dizer que o Viagra para além do seu simples efeito vaso-dilatador ganhou aspectos simbólicos de um salvador.

Segundo os autores, houve, muito antes da chegada propriamente dita do medicamento às farmácias brasileiras, uma hiper-exposição midiática. Esse mecanismo, muito comum na divulgação de produtos da indústria famarcêutica, foi potencializado, pois a propaganda estava operando com medos antigos ligados ao símbolo da masculinidade. Era como se, de uma hora para outra, o peso de carregar o fardo da manutenção de um desejo insaciável e sempre alerta (símbolo tradicionalmente machista da sexualidade masculina) pudesse ser resolvido na farmácia mais perto de casa. Alavancados pela existência farta desse sentimento entre homens brasileiros (uma vez que somos culturalmente reforçados como seres muito sexualizados) a mídia começou a bombardear notícias sobre esse novo medicamento milagroso e seu sucesso nos Estados Unidos. Tal processo ante de ser uma simples manipulação da “opinião pública”, fez com que o processo de liberação do medicamento pelo Ministério da Saúde fosse muito agilizado a despeito dos precários estudos a respeito dos efeitos colaterais desse fármaco. Vale lembrar que nessa época o Ministro da Saúde é o atual candidato à Presidência, o senhor José Serra.

Junto com o surgimento do Viagra vimos a passagem sutil da denominação “impotência sexual” para a “disfunção erétil”, mudança que se faz sutil na estratégia lingüística, mas que opera uma modificação etiológica drástica. A partir daí, saem de cena as explicações psicodinâmicas e hegemonizam-se as causas orgânicas, colocando a sexualidade no caldeirão normativo da medicina-organicista. No caso específico do Viagra, a conjunção meio de comunicação em massa e comunidade científica como mecanismo de forte poder de significação social fica muito evidente, pois a questão sexualidade como um fato médico e o Viagra como solução passou a habitar todas as colunas dos jornais, desde os artigos “sérios”, passando pelas charges, pelo setor de economia, chegando à sessão de esporte.

Como em outros âmbitos, a sexualidade no contemporâneo está passando por um filtro discursivo que cria determinações do que é o comportamento saudável, normal, aceitável. Esse processo tem como motor explicações organicistas e, por conseguinte terapêuticas medicamentosas “claras, eficazes e curativas”. Porém, no caso do Viagra em específico, o que está acontecendo no plano simbólico é a disseminação de um modelo de masculinidade naturalizada como excessiva. Só existe o homem que “dá conta do recado”, “que está sempre pronto”, uma série de preconceitos, responsáveis inclusive por muitas impotências, são utilizados como motor de um mercado que se utiliza da falácia da resolução rápida dos problemas de comportamento.

Nesse sentido é a heterosexualidade, o sexo como penetração penis – vagina, que está sendo naturalizada como forma saudável de vida sexual. Isso caiu como uma luva para a sociedade brasileira, que, além de machista, dá um lugar privilegiado a sua auto-intitulação de seres “muito sexuais”. Assim o Viagra rapidamente virou assunto dominante no Brasil, muito antes até de chegar efetivamente às prateleiras das farmácias brasileiras. Virou piada, música, artigo, pois lida com auto-imagem do homem brasileiro, sustentada pelo apelo moral da masculinidade como sexualidade interminável.

Nesse momento nos surge um paradoxo, pois se você precisa de Viagra é porque você não tem mais essa virilidade… No começo, as pessoas (na sua grande maioria idosos) tinham vergonha e cuidado ao comprar o medicamento, não por seus efeitos colaterais que poderiam ser muito perigosos, mas mais pelo medo de ter essa imagem de virilidade desconstruída.

Mas a popularidade do Viagra está intimamente ligada a dois outros fatos, de um lado ele se apresentava como uma solução muito mais rápida e eficaz às outras terapêuticas (cirurgia e psicoterapia), do outro a própria máquina publicitária das indústrias farmacêuticas, que consegue fazer propaganda de hemorróida em horário nobre com uma linda moça andando a cavalo… daí para vender um remédio milagroso para impotência nem precisa apelar tanto.

Um subproduto (não tão sub, mas com certeza bem produto) da disseminação do Viagra foi a utilização desse medicamento por jovens. Não entraremos numa discussão pormenorizada desse fato, mas só pontuando que o Viagra é um vasodilatador atuando principalmente pelo aumento de freqüência cardíaca. Jovens, procurando aumento de potência passaram a tomar o medicamento junto com álcool e outras drogas. Se for utilizado por eles, somente o fármaco sem misturas, os riscos de um ataque cardíaco fulminante aumenta muito, no caso apontado em que jovens misturavam com álcool – os riscos são imensos. Mas será que isso era uma preocupação para Pfizer?

Viagra feminino


 

O uso de medicamentos com o objetivo de melhorar o desempenho sexual sempre esteve direcionado ao público masculino, sendo o Viagra o mais conhecido no mercado (inclusive o próprio Viagra foi utilizado por mulheres). Entretanto a “disfunção sexual” feminina vem ganhando seu espaço. O Femtrex é um medicamento que está circulando pelos meios de comunicação como sendo o Viagra Feminino, sendo conhecido como “Pílula Rosa”.

O Femtrex, de acordo com os sites que promovem a sua venda, gera um aumento do desejo sexual da mulher, elimina a secura e a falta de lubrificação vaginal, supera a incapacidade de atingir orgasmos mais longos e potentes.

O Fentrex, da mesma forma que o Viagra Masculino, vem sendo apresentado como pílula mágica para resolver o problema da sexualidade. Esse tipo de pensamento vinculado ao medicamento pode ser percebido nas seguintes falas: “O Femtrex ajudará: a esquecer o sentimento de cansada e o mal humor ” “… abre suas portas de paixão e lhe permite provar um grau de prazer e de resposta sexual que tinha pensado durante muito tempo que era inatingível ou que não fora possível!” (http://www.ventausa.com/theproducts.cfm?cat=80&master=7338&owner=739).

Os medicamentos vinculados ao desempenho sexual fazem promessas que vão além do seu real efeito. As pessoas são levadas a pensar que ao consumirem esses medicamentos estarão livres de todo tipo de problema. A publicidade que vincula esses medicamentos ignora os motivos que impedem a satisfação sexual do indivíduo. Nesse contexto, é importante ressaltar que, além dos aspectos orgânicos, os aspectos psicológicos possuem grande relevância na obtenção do prazer. Vale dizer que a sexualidade feminina está muito mais relacionada a fatores emocionais e comportamentais. Medos, bloqueios, estresse, cansaço, preconceitos, vergonha ou inibição de tocar o próprio corpo e mais um monte de fatores podem influenciar o desejo, a excitação e o orgasmo feminino.

 

Considerações Finais

O que observamos nesse processo todo é que há um projeto patologizante que perpassa o contemporâneo e, na maioria das vezes, esse projeto lança mão de modelos simbólicos tradicionais e preconceituosos. No caso do Viagra em específico, pressupõe-se certo modelo de ser homem (dominador, selvagem, insaciável), certo modelo de ser mulher (passiva, receptora), resumindo o homem a sua potência sexual e a mulher a sua capacidade de estar lubrificada. Perde-se assim toda uma dimensão da vida sexual que não está descolada da vida como um todo.

Nesse processo, a mídia alinhada com o discurso científico tem um papel primordial, mas antes de dizer que o povo tem a mídia que merece devemos pensar que muitas vezes o povo aprende o que merece pela mídia.

Por Ana Paula Mattedi, Getulio S. S. Pinto, Gustavo Albergaria e Nailani Fabris

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Uma resposta para ““Aparição do Viagra na cena pública brasileira: discursos sobre corpo, gênero e sexualidade na mídia” (discussão da aula do dia 27/09/2010)

  1. Luciana Caliman

    Muito bom gente! Adorei o texto! vcs tocaram nas questões centrais da discussão…

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