“Medicalização de Mulheres Idosas e Interação com Consumo de Calmantes” (Discussão – aula do dia 20/09/10)

Pense por um instante nas pessoas mais próximas à você, sua família, seu círculo de amigos, etc. Agora tente pensar na relação que estas pessoas possuem com medicamentos, as que usam medicamentos frequentemente, ou àquelas que usam esporadicamente. Como se dá esse uso? Que efeitos eles almejam e para que fim são usados? Já é mais do que familiar ver a relação que nossas mães, tias ou avós se medicam e espalham dicas e costumes medicamentosos no meio social.  Como sempre ouvimos de nossos pais ou avós:  “de médico e louco, todo mundo tem um pouco”.

Após leitura e consequente discussão em sala de aula do artigo “Medicalização de Mulheres Idosas e Interação com Consumo de Calmantes”, se fez necessário um questionamento acerca do assunto. O artigo mencionado teve por objetivo o estudo entre gênero, envelhecimento e  consumo de calmantes, e como esta interação com os medicamentos se dá. Faz-se relevante relatar que a pesquisa tratou de estudar um grupo de 18 mulheres idosas, e percebeu-se a intensificação do uso de medicamentos em relação à problemas cotidianos.

A mulher é vista como promotora de bem-estar, mas ao chegar à terceira idade, essa concepção muda. Uma vez que a figura do idoso – incapaz, velho, inábil, debilitado… – associada à figura da mulher – passiva, frágil, cuidadora… – agencia novas atitudes frente aos idosos.

A mulher, socialmente construída como “corpo frágil”, passiva e alheia às coisas da vida, é submetida muitas vezes a um ”machismo social”; mas paradoxalmente ela é ativa na relação saúde-medicamento.

Paralelamente acontece a exaltação de uma “beleza humana”, considerada chave de toda adequação social; essa mesma mulher, já idosa, participa, exalta e cuida de sua beleza como se essa tal demanda existisse desde sempre, e suas próprias particularidades são ignoradas. O sujeito ocupa para si um lugar que antes não era seu, ou mesmo nem lhe encaixa. Os preconceitos criam um espaço que não está organizado para lidar com características típicas da velhice. O que se faz então? Negligenciar nosso próprio futuro?

Contraditoriamente, com o envelhecimento, esse espaço pressiona a mulher idosa a se colocar de um outro ângulo e exige-se  formas ainda mais opressivas, ou seja, fortifica-se a idéia de uma Super-Mulher com o objetivo de dar conta de todos os problemas e preocupações típicas da idade ou não, e ainda ser bela.

A mulher é chamada a encarar o corpo da Super-Mulher e, com seu comprimido na mão, ela é fortificada e se faz útil. À Super-Mulher é esperada que se cumpra algumas missões – como cuidadora é necessário resolver problemas de filhos já casados, cuidar e medicar o marido (sim, ela “conhece” os remédios e medica se for preciso!), superar todos os conflitos e os problemas “da idade”, estar sempre bem e permanecer CALMA. Não é permitido à Super-Mulher a falha, o erro, o esquecimento e o desligamento das questões preocupantes da vida. Se faz necessário combater o tempo, o envelhecimento e suas particularidades.

Não aceitamos a falha de  qualquer super-herói, e se este não cumprir o que lhe é imposto? Como reagimos? É, somos ativos também na construção desse processo; exigindo adequação,  despotencializando mudanças, anulando singularidades.  Quando há falhas e erros, estes devem ser reparados.

Esse medicamento, visto como positivador das relações, é a válvula de escape – “o tapa buraco” – responsável pelo “dar conta” dos processos da vida. Os calmantes, como o próprio artigo vem mencionar, são consumidos por essas mulheres como única resposta possível aos problemas relacionados ao envelhecimento, os combustíveis para a vida.

Ocorre em grande parte das vezes a auto-medicamentação. Essas mulheres, já “familiarizadas” com o tratamento medicamentoso, se auto-medicam e medicam seus familiares e/ou amigos. Dissipa-se assim entre outras pessoas essa medicamentação inadequada.

A vida é colocada em tratamento medicamentoso. A correria do dia-dia, as dificuldades em enfrentar as situações da vida tornam o remédio o tratamento mais aceito por essas idosas, e a  inadequação do uso dos medicamentos torna os sujeitos dependentes de tais práticas.

A noção de bem-estar está imbricada com a medicamentação, o bem-estar como uma possibilidade de sempre estar curando, como se sempre houvesse algo para curar; a promoção de saúde é a distribuição de remédios. Mas se há saúde, há vida e há doenças, medicalizamos a própria vida a fim de pensar que estamos promovendo saúde.

As práticas psicoteráticas são deixadas de lado, e a resolução por meio do medicamento parece, para grande parte dessas mulheres, mais eficaz. O passar do tempo, suas vivências e experiencias são “despositivadas” e cristalizam-se, dissolvendo-se em comprimidos instantâneos de humor.

Os remédios são pílulas as quais “só promovem” reações boas ao organismo, e as políticas públicas e propagandas reafirmam e difundem essa idéia. Propagandas, filmes, revistas e entre outros meios de comunicação sustentam um ideal utópico de vida saudável – sempre jovem, magro… – adequado para produzir e reproduzir para o sistema sócio-econômico vigente.

Essa medicalização com consequente medicamentação impede o sujeito muitas vezes de criação, de produção de seu próprio movimento em seu espaço e singularidade. A singularidade, produzida diante dessas mudanças rearranjadas, é medicada, muda, artificial. Diante de todas as missões propostas para nossa Super-Mulher, se faz necessário que esta venha a ressignificar essa fase e permanecer calminha, calminha…

A fim de ilustrar e complementar o post, abaixo seguem uns vídeos de propaganda publicitária  e animação:

Por Fernanda Vieira Biajoli e Noelli Vairo Martins



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