Sobre os Distúrbios de Aprendizagem

O conceito de distúrbio no contexto das escolas geralmente remete a problemas causados por alunos que não se adaptaram ao ambiente escolar. Essa concepção tem sido construída como se o distúrbio fosse uma doença que emergisse no sujeito devido a uma característica de anormalidade patológica individual.

Pode-se problematizar então acerca dos fatores envolvidos em todo o processo de aprendizagem, que muitas vezes permanecem ocultos, sendo o “fracasso” escolar uma característica inerente ao sujeito, de uma não adequação à “normalidade”. Localiza-se então, numa única pessoa, a incidência e o resultado de todo um processo de construção de uma patologização no ensino. Assim, transforma-se em biológica uma questão que emerge nas práticas do campo social, e os processos históricos e coletivos que constituem essa produção são encobertos pela “capa” da individualidade.

A construção da noção de patologia no campo da educação surge principalmente com a apropriação do discurso médico, que baseia-se numa base anátomo-biológica e neurológica para afirmar a cientificidade das descobertas relativas aos problemas de aprendizagem. Uma lógica na qual a causalidade é pressuposto básico para a concepção de uma determinada patologia se torna frágil, pois não envolve questões de outra ordem que não a da afetação da esfera biológica.

O próprio conceito de anormalidade carrega em sua construção histórica a noção de que o “desviante” deve ser esquadrinhado e identificado para que então seja ajeitado na sociedade. Os que não correspondem comportamentalmente às normas sociais estabelecidas, são vistos como um problema a ser controlado.

Com o avanço das pesquisas científicas a respeito dos transtornos de aprendizagem surgem conceitos que endossam e confirmam a redução de aspectos comportamentais a disfunções cerebrais, como por exemplo a teoria fisiopatológica e o surgimento da noção de difunção cerebral mínima. Essa segunda diz respeito a um funcionamento “desregulado” do cérebro, que levaria a comportamentos como agressividade, hiperatividade, distúrbios de linguagem e aprendizagem dentre outros. Como a base biológica estava intacta nas pessoas em que foram identificados esses “sintomas”, subverteu-se até a própria lógica objetiva da medicina para afirmar que não sendo possível localizar a lesão no tecido neurológico, a alteração era devida a uma “desregulagem” fisiológica dos indivíduos.

Uma questão que pode-se pensar é que qualquer comportamento que fosse identificado a partir de então como indesejado, como a dificuldade de aprendizagem, seria objeto de classificação, por ser considerado como uma patologia não identificável anatomicamente.

Essa construção foi efetuada no seio de uma sociedade que cultivou a idéia de que as questões sociais surtiram apenas como resultantes de movimentos individualizados, ou seja, que cultivou o ideal de que cada um é somente ele mesmo responsável pelo que lhe acontece, limitando a criticidade e análise dos fatos sociais.

Com essa conjuntura da sociedade individualizada, emerge também a noção da medicalização para controle dos indivíduos desviantes, que surge muitas vezes sob a forma de “tratamento da doença”. Assim, o número de “doentes” é exorbitante.

Dentro da atual conjuntura histórica, toda essa produção se dá no contexto capitalista de produção, e muitas vezes as justificativas criadas para a medicalização se baseiam em princípios tanto de controle quanto de consumo das substâncias criadas para “curar” os desvios de aprendizagem.

Porém outras formas de compreensão dessa realidade de “distúrbio de aprendizagem são defendidas por profissionais interessados em problematizar a questão dos distúrbios, tanto na medicina quanto na psicologia. Mostrar como muitas vezes a questão do diagnóstico precoce está relacionada principalmente ao fato de as crianças serem vigiadas cada vez mais cedo e a partir disso, seus comportamentos serem rotulados como incoerentes com o ambiente escolar. O que ocorre então é o foco da atenção: o que tem sido enfatizado, sob que se lançam os holofotes dos distúrbios de aprendizagem.

Tendo refletido sobre todas essas questões, podemos pensar que forma de produção de vida tem se feito a partir do discurso de patologização e individualização de questões que acontecem na diversidade do que é o humano. A produção de uma norma que visa sarar a doença não tem mais produzido assujeitamento e dependência do que realmente se propõe a tratar?

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Postado por Lidiane Reis e Tássio Jubini

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Uma resposta para “Sobre os Distúrbios de Aprendizagem

  1. Luciana Caliman

    Pois é, esta história é antiga, né!? Individualização de questões sociais, educacionais, políticas. Primeiro, fizemos isso dizendo que os problemas de aprendizagem tinham uma causa que era psi: famílias desestruturadas. Parece que hoje tem predominado a explicação bio: genes e disfunção cerebral. Neste processo, continuamos mantendo a lógica da causa e efeito que, na verdade, funciona muito pouco quando se trata de questões complexas. Não há um “causa” única como também não há a mesma solução para o problema, se é que podemos chamar de problema tudo que denominam de “fracasso escolar”. Me lembro de uma fala da Adriana Marcondes no último evento sobre educação Especial aqui na UFES e que não canso de repetir: “quando vcs educadores se deparam com meninos e meninas com Dislexia ou TDAH na escola, as estratégias pedagógicas a serem utilizadas serão as mesmas? Não?! Então não é doença, pode ser um problema pedagógico , mas não é doença”. Ao mesmo tempo, ela também chamava a nossa atenção para o fato que sempre haverão crianças que não aprendem na escola, simplesmente porque nem todos aprendem da mesma forma e a escola tem que lidar com esta realidade de forma inclusiva… para pensar.

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