Um panorama da psiquiatria em Vitória nos anos 70/80: Questionamento de paradigmas e composição de novos desafios

Na década de 70 o modelo psiquiátrico instituído no estado do Espírito Santo, pautava-se em uma instituição manicomial retratada pelas seguintes cenas: longos corredores, salas frias, “cubículos” (quartos sem janelas onde os pacientes mais “agitados” ficavam por algum período amarrados por seguranças), grades, cadeados, falta de luz, internação por vezes compulsórias sem critérios médicos, abandono familiar, superlotação de internos, terapias com eletro choques. A terapêutica adotada, era basicamente a química. Ao dar entrada no Hospital o paciente já era medicado e todo “poder” era conferido ao médico e o restante da equipe não podia sequer falar sobre o estado clínico do paciente (Milena, 2005).

Com relação à  parte administrativa todos os recursos e serviços disponibilizados pelo governo eram geridos por um pequeno numero de médicos. Assim presenciava-se um monopólio da psiquiatria capixaba, no qual todo trabalhador de saúde mental e recursos dos serviços públicos tinham vinculo direto com essa instituição denominada SOMPES, Sociedade Médica Psiquiátrica do Espírito Santo.

A partir da influência de diversas correntes de pensamento que questionavam a psiquiatria vigente germina no Espírito Santo uma nova concepção de saúde mental. Destacam-se as experiências de movimentos de antipsiquiatria na Inglaterra e Itália, a desistitucionalização da loucura e hospitais psiquiátricos, bem como a psicanálise argentina foragida da ditadura conectada a ações de lutas políticas.

A apropriação dessas influencias por alguns profissionais de saúde da década de 70 culminou na criação de um serviço diferenciado na atenção ao doente mental: Centro de psiquiatria comunitária.

O Centro de Psiquiatria Comunitária foi inaugurado no início de 1976 como um anexo do Hospital Adalto Botelho e contava com o total de 20 a 30 leitos, uma sala de atividades e duas salas de atendimento de uso comum.

Entre as modificações no tratamento encontramos formas mais efetivas e menos violentas de lidar com as doenças mentais. Como a extinção definitiva do eletrochoque e do cubículo, a participação da família do interno no processo de terapeutico, atividades individuais e grupais, assembléias com decisões participativas e uma equipe multiprofssional.

Deve-se destacar ainda que, essa é a primeira experiência de formação de uma equipe multiprofissional (psicólogos, psiquiatras, assistentes sociais, auxiliares de enfermagem, auxiliares administrativos etc) no serviço público de saúde do Espírito Santo.

Essa iniciativa obteve resultados significativos no âmbito da desistionalização da loucura na medida em que a partir da mudança de gestão foi possível o aumento do número de altas, maior engajamento e satisfação dos profissionais, pacientes, comunidade envolvidos e introduziu um questionamento no restante do Hospital acerca do modo clássico de tratar o “louco”. Podemos considerar esse serviço como a primeira faísca da luta antimanicomial no Espírito Santo.

O centro de psiquiatria comunitária foi extinto em 1982 uma vez que, entre outros fatores, o Dr. Paulo Bonates saiu da direção do serviço. Nesse ínterim outra direção assume o Adauto Botelho e interdita o ambulatório.

É importante destacar que a idéia de se implantar um serviço desse nível no Estado parece ter sido do Dr. Paulo Bonates, psiquiatra, que, então, era diretor clínico do Adalto Botelho. Esse fato nos convoca a pensar em certa contradição, uma vez que o centro de psiquiatria comunitária encontrava-se dentro do Hospital e tinha como um de seus aliados o diretor clínico do Adalto. Ou seja, modos de funcionamento que afirmam paradigmas tão diferentes coexistiam no mesmo espaço físico e compartilhavam, muitas vezes, os mesmos profissionais. Atualmente esse processo se atualiza como uma “aparente contradição” na qual atitudes manicomiais se expressam na vida e, portanto, coexistem nas institições que afirmam a luta antimanicomial como os centros de atenção psicossoial (CAPS) e as Residências terapêuticas. Os desafios que se impõem hoje ampliam a cena antimaniconial no sentido em que a desinstitucionalização da loucura não exclui modos manicomiais de funcionamento. Ou seja, apesar do avanço claro no sentido de humanizar o tratamento no “louco” as outras formas terapêuticas da loucura podem sutilmente ou não desqualificar e tutelar o “doente mental” . Isso se dá porque expressões manicomias estão inscritas nos corpos e precisam ser geridas, problematizadas e analisadas no processo da vida, excedendo os muros das instituições.

Por Renata Junger e Thiago de Souza

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Uma resposta para “Um panorama da psiquiatria em Vitória nos anos 70/80: Questionamento de paradigmas e composição de novos desafios

  1. Muto interessante esse registro . À época , paciente que eventualmente consultava com profissionais (psiquiatras,psicólogos)no SOMPES, posso aquilatar que ali era bem diferenciado (para melhor ) o trato ,uma vez que viam o indivíduo como um todo ,e não apenas como uma unidade solta no espaço-tempo.(MT)

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