“Uma nova infância” nasce no encontro com a Escola… e tantas outras coisas mais!

Prosseguindo a discussão sobre a psiquiatrização da infância, voltamos nossa atenção para a instituição ESCOLA e os seus fazeres ao longo da história…

Podemos entender que do encontro da infância com a escola nasce a necessidade de uma normatização desta primeira. A escola passou a ser a máquina de adequar os corpos infantis às normas, e em contrapartida, denunciava aqueles que não se enquadravam aos padrões estabelecidos, aqueles cujo comportamento não se alinhavam ao desejado aluno “bom cidadão”.

A indisciplina, o descontrole, a indiferença às normas impostas demonstravam um problema para a adequação à escola. Surgia a partir dessa incoerência entre a criança e a escola uma nova categoria de ‘alienado’, um falso anormal, que até o ingresso na escola não houvera sido identificado, já que aparentemente, era como todas as crianças.

O problema das escolas não eram as crianças idiotas que estavam nos asilos, já fadadas ao insucesso educacional. Eram as crianças que não haviam sido identificadas como doentes, que aparentemente não demonstravam nenhuma anomalia, essas que, mesmo sem os traços biologicamente marcantes tinham comportamentos destoantes e que causavam tumultos nas escolas, essas eram o problema para a educação. Temos a partir daqui uma discussão da instituição escola não somente como produtora de corpos saudáveis e úteis ao trabalho, mas, olhando mais profundamente, uma máquina detectora de desordem, acusadora de seres que não se curvam à disciplina e a norma instaurada e construída pela sociedade.

O que fazer com essas crianças que aparentemente normais, não se adequam à escola?

Qual é o problema da escola, ou melhor, qual é o problema destas crianças?

Nesse ponto, percebemos o posicionamento da sociedade (nosso posicionamento) frente a essa situação: Essas crianças ‘falsas normais’ apontavam que a educação imposta até então não garantia a manutenção de uma sociedade civilizada; logo, podemos dizer que o pequeno destoante é um “anormal moral”. A curto prazo, possível desvirtuador das demais crianças; a longo, um fracasso social em potencial… Mas a grande questão é que principalmente a partir do início do século XX o possível perigo que ronda esta criança passa a ser visto como remediável, embora a pedagogia, por si só, não desse conta. Uma vez que este indivíduo passa a ser carente de uma educação específica, “especial”, se torna também objeto de estudos que buscam definir e aprimorar cada vez mais as especificidades de seu caso e suas necessidades. Vira portanto, campo para o saber médico, e da mesma forma, para o saber psi também.

É curioso que ao acompanharmos este movimento da criação dos “anormais” percebemos que é aí também que nascem os “normais”. Ou seja, não é que sempre houve a curva normal, e por acaso do destino, alguns ou outros sujeitos surgiam fora dela. A curva é traçada a partir do momento que são identificados aqueles que, por algum motivo, são indesejáveis, ou menos desejáveis que outros…

De qualquer forma, ocorre o surgimento de uma nova categoria de doença mental na infância, já que a escola denuncia a criança instável como um ser falso normal, isto é, aparentemente ela é com as demais, mas por destoar da disciplina imposta, torna-se um perigo para essa produção de uma sociedade padrão.

O encontro com a escola produz o “psiquicamente” anormal e o normal também.

É possível entendermos que gera-se aí tanto uma  “medicalização da educação” quanto uma “pedagogização da medicina”, na medida em que esses alunos “psiquicamente”anormais são detectados e para eles criam-se espaços onde possam ser disciplinados da maneira correta, de forma que desejavelmente não venham também a atrapalhar seus demais coleguinhas futuros bons cidadãos

Trazendo essa discussão para a contemporaneidade, percebemos que cada vez mais nossos padrões educacionais tendem a buscar a construção desses bons, agora, melhores cidadãos. Não basta somente seguir o padrão de disciplina, ser organizado e pontual. É preciso ser exemplar, diferenciado, destaque. Não há somente uma bipolaridade, mas vários pólos de anormais, normais, meio normais, semi normais, quase normais, quase nada normais…


O foco não é mais a cura, a estabilidade. Tudo pode ser otimizado, sempre haverá algo mais civilizado, mais ‘humano’. Saímos do padrão incurável para a busca dos padrões reguláveis (sempre para cima!). Que conseqüências decorrem dessa mudança?

É possível pensarmos que um dos efeitos da “biologização dos problemas morais” da infância está em certa desculpabilização dos indivíduos em si, transferindo a causação a um gene, uma estrutura cerebral. Mas é ilusão pensar que se eliminou o tratamento moral. Ele permanece, mas em novas roupagens, rótulos e nomes-fantasia.

Afinal, se podemos busca otimizar esses alunos, isto só pode ser “bom”, ser o “melhor”. Assim, são a eles oferecidas todas as condições escolares e tratamentos que cada um necessita: bagunceiros, desligados, para os que falam demais, para os que não falam, para os que não gostam de quadro verde, para aos que não ficam parados.

Por fim, precisamos sempre nos atentar ao fato de que a construção destes modos de ser/ estar/ fazer é COLETIVA. Estamos todos mergulhados neste caldo, não só enquanto profissionais psi, mais enquanto professores, alunos, pais, filhos, pacientes, hiperativos, preguiçosos, etc…

Trata-se, portanto, de um convite para se olhar quanto criamos e alimentamos a existência de verdadeiros guetos de subjetividade, saberes diferenciados que se diferenciam cada vez mais, a ponto de já não poderem se comunicar com os demais… Quanto a constante busca por possibilidades de diferença, que nos é tão cara, muitas vezes não erra o tom ao se deixar capturar em novos padrões de vivência e moralidade, criando as “formas desejáveis” de se viver enquanto diferente?

Como olhar a diferença sem se desesperar quando ela nos escorre entre os dedos, diferenciado-se uma vez mais? Como não aprisioná-la em categorias para termos a elas como objetos estudáveis? Desafios para nós…

POR LUANNA DEL CARMEN BARBOSA MATANNÓ E NATHALIA DOMITROVIC

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