Respondam o enigma assim que puder, ao soar de Notre Dame, quem é o monstro e o homem quem é?

Baseado em um livro de Victor Hugo publicado em 1831 que retrata a Paris do séc. XV, o filme da Disney “ O corcunda de Notre Dame” nos traz esse enigma. Trouxemos esse questionamento ao nosso blog não para pensarmos juntos uma resposta consensual com status de verdade, também não pretendemos com ele promover uma discussão binária do tipo “o homem” x “o monstro; “o certo” x “o errado”; “o bem” x “o mal”. Apostamos nesse enigma para problematizarmos o que temos concebido, ao longo dos tempos, como humanidade e também como monstruosidade. 

 

Na versão da disney, Quasímodo – o corcunda –  nos remete aos corpos da degeneração, arriscamos um paralelo entre essa figura e a do idiota institucionalizado, ambos aprisionados em uma classificação moral, que os destituem de afetos, sensibilidade, inteligência e até mesmo humanidade.  Esmeralda – a cigana –  pode ser entendida como um modo de existência que ultrapassa  o a apriori, enxerga a vida para além do que é dado, vislumbra o abstrato e dessa forma inaugura o novo. Ela constrói junto ao Quasímodo um outro modo de ( re)existir na vida.

Ao nosso ver, o modo de existência Esmeralda rompe com um padrão hegemônico de assepsia e normatização ao que é tortuoso e desviante, ou seja, rompe com o fazer valer a eugenia – o melhoramento social.

Lilia Lobo (2008) traz em sua obra uma genealogia da exclusão no Brasil. Notamos que essa idéia do puro, do limpo, do ascéptico  impregna saberes e fazeres do século XIX.  Esse contexto dispara em nós: como, quando e porque o socius se torna questão? Como os discursos de prevenção e risco direcionam-se para as camadas mais pobres e para a infância? Entre muitas discussões, Lilia Lobo (2008) faz uma análise da filantropia no Brasil.

Nesse sentido, Donzelot ( 1986) fala sobre a filantropia:

“Não se pode conceber a filantropia como uma fórmula ingenuamente apolítica de intervenção privada na esfera dos problemas ditos sociais, mas sim como uma estratégia deliberadamente despolitizante face à instauração dos equipamentos coletivos, ocupando uma posição nevrálgica eqüidistante da iniciativa privada e do Estado. “ (pg. 56)

O filme “ Quanto vale ou é por quilo?” vem ao encontro dessa idéia e denuncia as solidariedades lucrativas brasileiras. É tão interessante que cada criança assistida gera, no período que o filme foi feito, cerca de 5 empregos. Interessante à economia, ao Estado e ao filantropo.

Além disso, essas práticas ajudam a manter a ordem social, pois amansam possíveis revoltas, controlam os corpos e assistem de fato pessoas. Essa manutenção da pobreza gera lucros. A filantropia distribui conselhos de moral e higiene, Lilia Lobo (2008) marcando uma possível diferença entre a obra filantrópica e a caridade, nos traz: O pobre, o defeituoso, o desvalido continuariam o pobre coitado das obras caridosas – à diferença de que sobre ele recairia o autoritarismo das verdades científicas, a transferir a virtude e o pecado para a ordem moral e a doença (p.338).

Nota-se que a infância torna-se o foco das ações filantrópicas. E para além das ações filantrópicas, a infância torna-se questão a partir século XIX para um novo modo de governamento, para uma nova forma de gerir a vida. Enguita (1989) traz uma discussão a cerca da construção social, histórica e política dos moldes escolares modernos. Utilizando-se de relatos do séc. XIX, o autor aponta por quais caminhos a forma da escola moderna se guiou. Pode-se identificar uma captura das funções da escola com o surgimento e a propagação do modo de produção industrial.  A escola passa a funcionar como um instrumento de disciplinalização dos corpos, uma vez que, assume o papel de disseminadora da ordem e dos “bons costumes” e produz uma educação pautada em princípios tidos como indispensáveis para a prática industrial tais como: a pontualidade, a eficiência e a padronização.

A fé, a piedade, a humildade, a resignação ou as promessas de que o reino dos céus passaria a ser dos pobres e que os últimos seriam os primeiros podiam ser suficientes para obter a submissão passiva do trabalhador, especialmente do camponês fragmentado, ignorante e apegado incondicionalmente às normas da propriedade, mas não para conseguir a submissão ativa que o trabalhado industrial exige do operário assalariado. (…) Para isto era necessário o concurso da vontade do trabalhador, e portanto nada mais seguro que moldá-la desde o momento da sua formação. O instrumento idôneo era a escola. Não que as escolas tivessem sido criadas necessariamente com este propósito, nem que já não pudessem ou fossem deixar de cumprir outras funções: simplesmente estava ali e se podia tirar bom partido delas. (ENGUITA, 1989, p.114)

A psiquiatria, ao longo do século XIX, por meio de um processo de interiorização, intimização, configurou-se como a especialidade legítima para diagnosticar, prevenir, tratar  as chamadas “doenças mentais”.

“Perdeu , entretanto, ao longo do séc 19, com a teoria das degenerescências, a evidencia das marcas das superfícies, deslocando-se às profundezas invisíveis do corpo , até consistir de forma mais abragnte, em doença mental.Nem sempre visível aos olhos leigos , só um especialista, estaria então, apto a diagnosticá-la nos hospistais ou a perícia-la nos tribunais. O verdadeiro sujeito desse saber está aí constituído – psiquiatra.” ( LOBO,2008, p. )

As classificações psiquiátricas, como por exemplo, a idiotia, o imbecil, entre outras, lançam mão da moral para enquadrar pessoas ao status de doente mental. Classificações, por sinal, confusas e dicotômicas. Segue um trecho de médicos brasileiros, seguidores de Esquirol, que descreve os imbecis – trecho retirado do livro da Lilia Lobo (2008);

“Eles podem ser habilidosos para ofícios mecânicos, preguiçosos, vagabundos ou bons trabalhadores; ter raciocínio quase nulo ou grande memória; ser afetuosos ou perversos e obscenos, dados à embreagues, ao roubo, extravagante, atortoados, crédulos, vitimas de valhaço ou ardilosos; impulsivos,violentos, vaidosos, egoístas, caluniadores, mentirosos ou sinceros; agitados ou calmos e alegres” (2008, p. 356).

Pensamos no quanto esses processos de interiorização, intimização, retiram da vida   a sua potência política e no quanto a classificação, a padronização de determinados modos de ser e estar na vida  reduz a multiplicidade desses sujeitos que, ao nosso ver, é sempre mais do que as definições podem alcançar e dessa forma, escapam aos limites do enquadramento. No entanto, uma vez enquadrados, pensamos no quanto de sofrimento e segregação se pode produzir. E assim, é importante atentarmos para as nossas práticas cotidianos que fortalecem esses aprisionamentos.

“O fio da faca que esquarteja, ou o tiro certeiro nos olhos, possui alguns aliados, agentes sem rostos que preparam o solo para esses sinistros atos. Sem cara ou personalidade, podem ser encontrados em discursos, textos, falas, modos de viver, modos de pensar que circulam entre famílias, jornalistas, prefeitos, padres, psicanalistas, etc. Destituídos de aparente crueldade, tais aliados amolam a faca e enfraquecem a vítima, reduzindo-a a pobre coitado, cúmplice do ato, carente de cuidado, fraco e estranhos a nós, estranho a uma condição humana plenamente viva. Os amoladores de facas, à semelhança dos cortadores de membros, fragmentam a violência da cotidianidade, remetendo-a a particularidades, a casos individuais. Estranhamento e individualidades são alguns dos produtos desses agentes. Onde estarão os amoladores de facas? “ (BAPTISTA,1999, p. 46)

Tomamos a vida como um processo, construída por subjetividades coletivas, e dessa forma, entendemos que Rótulos, Estigmas, Classificações, não são apenas produções psiquiátricas sobre os degenerados, mas sim que há contribuições de cada um de nós nesses processos. Nesse sentido, refletir e problematizar a cerca de conceitos, práticas, padrões, definições já estabelecidas é positivo e potente, uma vez que interferimos o tempo todo nesses processos seja pela via da conservação ou pela via da invenção ou ainda por tantas outras infinitas vias de interferência nos processos da vida.

Links do Video: http://www.youtube.com/watch?v=tb1Q1GkhWZc

1) Trecho do filme : O corcunda de Notre Dame: http://www.youtube.com/watch?v=tb1Q1GkhWZc

2) Trecho do Filme : O corcunda de Notre Dame: http://www.youtube.com/watch?v=tb1Q1GkhWZc

3) Trecho do filme : O corcunda de Notre Dame: http://www.youtube.com/watch?v=20ytNIgcA74&feature=related

Referências Bibliográficas:

BAPTISTA, L. A. A Cidade dos sábios: Reflexões sobre a dinâmica social nas grandes cidades. São Paulo: Summus, 1999.

DONZELOT, J. A. Apolícia das famílias. Rio de Janeiro : Graal, 1986.

ENGUITA, M. A face oculta da escola. (pp. 105-131) Porto Alegre: Artes Médicas, 1989

LOBO, L. F. Os infames da história: pobres, escravos e deficientes no Brasil. Rio de Janeiro: Lamparina, 2008.

Por Antonio Martins Vitor Júnior e Giselly Ferreira Martins

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2 Respostas para “Respondam o enigma assim que puder, ao soar de Notre Dame, quem é o monstro e o homem quem é?

  1. A escola considera a criança instável, que destoa da disciplina imposta, como aquela que conhecemos por criança “problema”, que necessita de cuidados médicos, gerando-se aí , uma “medicalização da educação”. Valorizando-se a formação de seres dóceis e obedientes. Precizamos refletir sobre essas questões e atentarmos para que tipo de cidadão queremos formar, seres passivos, controlados ou críticos e reflexivos, transformadores da sua realidade.
    Trabalho da disciplina Saúde em Educação, consórcio CEDERJ, ensino à distância, UNIRIO.

  2. Gostei desse titulo! =)
    Fica a dica: filme “Monstros” de Tod Browning.
    Esse filme é legal pra gente visualizar o que era um circo dos horrores.

    » Sinopse: Em um circo de atrações bizarras, a linda trapezista Cleopatra é cortejada pelo anão Hans, mas o rejeita até descobrir que este herdou uma fortuna. Seu plano, forjado com o amante Hercules, é casar para depois envenenar o pequeno, mas logo a armação é descoberta e os diferentes se unem pela vingança.

    bjs

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