Loucura, Hereditariedade e Queda: a Teoria da Degenerescência.


Surge a primeira especialidade médica: a psiquiatria. Pela primeira vez um grupo de médicos se reuni para estudar um grupamento humano com ‘problemas’ semelhantes, e então a preocupação com os ditos loucos começa a ganhar forma. Mas a questão é… de onde vem essa loucura? O que a causa? Até então, as teorias existentes que tentavam explicar tal fenômeno falavam apenas de uma causação, que seriam os ditos “problemas morais”. Ou seja: o que isso tem a ver com a medicina? Área de conhecimento fundada na etiologia biológica? Está aí o pulo do gato. É essa lacuna que Bénédict Augustin Morel (1809-1873) vai tentar preencher. Morel, psiquiatra franco-austríaco nascido no início do século XIX, em sua preocupação com os alienados, vai estudar as causas do fenômeno da loucura e desenvolver uma teoria que mais tarde vai conferir a especialidade médica, que se ocupa destes alienados – no caso, a psiquiatria – cientificidade e legitimidade, características necessárias para uma área de conhecimento ter visibilidade no campo dos saberes. Com isso, fundamenta a teoria da degenerescência, uma etiologia de fundamentação biológica da loucura.

Aproveitamos a oportunidade para falar do contexto histórico que vai nutrir as idéias de Morel e ajudá-lo na elaboração de sua teoria. O que se apresentava como determinação política nesse momento no mundo, e principalmente na Europa, eram os preceitos da Revolução Francesa (1789): liberdade, igualdade e fraternidade. O século XIX vem cheio de projetos para dar conta do mundo caótico pós-napoleônico, e fazer valer estes preceitos era sua máxima. No entanto, tendo-se o ser humano como ser singular, que difere e muda constantemente e ainda, face às oportunidades de trabalho desiguais, condições de vida social insalubres, entre outras características, percebia-se que a tal igualdade estava longe de ser alcançada. Era preciso elaborar teorias e pensar sobre toda diversidade humana, pensar o que fazer com aqueles os quais não se adaptavam às condições desiguais impostas pela realidade econômica e política. A teoria da degenerescência toca exatamente nesse ponto, na classificação dos sujeitos e seus comportamentos inadequados. Com isso, a teoria de Morel além de dar sustentação cientifica para a psiquiatria, dá uma explicação acerca dos problemas que o mundo democrático recém nascido não dava conta. O fator desigualdade não poderia ser culpa do Estado, logo, esta era de responsabilidade do próprio sujeito degenerado, o qual Morel descreve em sua teoria.

Igualdade Social: um valor a ser questionado.

Igualdade Social: um valor a ser questionado.

Tendo como ponto de partida o termo degeneração/degenerescência, o psiquiatra, a partir diversos estudos na área, que se apresentavam em seu contexto histórico – referenciando principalmente Charles Darwin e sua teoria evolucionista da espécies –  aponta para a grande variabilidade da espécie humana, ou seja, suas singularidades.  Contudo isso significa dizer que esta tal singularidade, caracteriza não uma qualidade adaptativa – como aponta a teoria de Darwin, com o transformismo das espécies ao longo dos anos – mas sim um traço degenerado, o qual é potencialmente prejudicial à saúde (principalmente a saúde mental) do indivíduo e das pessoas ao seu redor. A degeneração na espécie se dá a partir do ponto de vista da existência de um ser primordial, primitivo, perfeito e saudável – um ser humano ideal, à imagem de deus, num viés bem criacionista mesmo -, que uma vez diferente, se torna doente. Este traço da degenerescência é sempre um traço doentio, sempre um traço patológico. Nesse momento, os estudos sobre a Hereditariedade, que circundavam o contexto teórico da época, concedem a Morel a justificativa biológica necessária para as causas da loucura. Em tais estudos, o indivíduo degenerado transmitia a seus descendentes os seus traços “doentes” – ou seja, traços que são características comportamentais não aceitas pela sociedade -, proliferando-se assim gerações de seres degenerados. No entanto, essa transmissão era temporária, pois os descendentes dos degenerados, em certo momento gerariam sujeitos estéreis e logo o traço doente se extinguiria, usando suas próprias palavras: “que coisa maravilhosa”. O que é importante colocar é que de alguma maneira essa noção de esterilidade seguida da extinção dos degenerados era imperativa, pois para pensar toda uma geração de degenerados, uma especialidade médica que se propunha a “cuidar”, sem o vislumbre de cura ou ainda extinção, traria em si o “germe da inutilidade” do trabalho psiquiátrico, analisando o contexto da proposta de Morel e da construção do novo saber da medicina.

Contudo, não se tinha ainda total solução para a questão. Morel mesmo admitia que a hereditariedade não era a causa única da degeneração, ele também coloca para a sociedade médica não só causas físico/biológicas, como também causas morais, falando assim da ‘teoria’ das causas mistas. Para Morel, não só a hereditariedade trazia em si o “mal” e a degeneração, mas também a questão moral. Vivendo em uma sociedade urbana, repleta de problemas de insalubridade, higiene, alcoolismo, subversão, prostituição, o autor afirma que estas questões morais também produziam sujeitos degenerados. Com isso, temos a seguinte afirmação: todo aquele ser humano que não estava enquadrado nos padrões morais da vida cotidiana da época – que inclusive se afirmaram pelo tempos e até hoje são marcas fortes no âmbito da saúde mental – eram passíveis a degeneração. E é por esse mesmo motivo que Morel vai propor, também como Pinel, um tratamento moral aos degenerados. Vale ressaltar que apesar de todas as discussões e questionamentos éticos e políticos que podemos e devemos fazer em relação a estas afirmações, Morel consegue trazer a tona algo extremamente benéfico. Para tratar os alienados, o psiquiatra vai propor diversas práticas de trabalho social, no que tange a melhoria das condições sociais de vida das pessoas: higienização, reparação da questão da insalubridade, ainda que estas questões se encerrem entre as paredes dos asilos para alienados. E mais: tais propostas tem como ganho a ampliação do campo de atuação da psiquiatria, um saber que começava a ser estruturado e ganhar força.

O que questionamos aqui então é toda uma necessidade de moralização de sujeitos que são culpabilizados e crucificados por sua singularidade (e aí incluímos os ditos loucos, caóticos e os “normais”, que também diferem…) e são silenciados por isso. A produção deste momento histórico trouxe importantes inovações e conquistas para a psiquiatria – que futuramente iria também contribuir para o nascimento da psicologia – mas, ao mesmo tempo, é a base do que circunda a nossa vida contemporânea, no sentido de tolir a potência de agir do outro, ou seja, sua potência de afirmar sua própria vida, do seu modo de agir e construir relações, com o mundo e com as pessoas. Todo aquele que “desvia”, que afirma sua potência de agir, parece ser passível de ser controlado, “curado” ou “domesticado”. Que sociedade é essa? Na qual a diferença – que faz de nós seres singulares e que tem a capacidade de compor o mundo e com o mundo – é classificada como doença? Quem foi que disse que ter o pensamento caótico é sinônimo de incapacidade? Dentre outros vários questionamentos, explicamos claro que não é de forma algum uma apologia a loucura e muito menos a negação de muito sofrimento que disso é acarretado. Mas que conhecer esta história, de como e porque tudo isso foi construído, é de extrema importância para analisar e pensar novas e outras práticas de lidarmos com o que nos “foge” à regra.

Texto: Paula Maria Valdetaro Rangel e Samya C. Peruchi

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s