Divisão da alienação mental em espécies distintas

Phillipe Pinel foi pioneiro ao estabelecer uma nosografia semiológica para classificação das enfermidades mentais, a partir da observação de sinais e sintomas que pudesse categorizá-las a partir de um pressuposto científico. A ênfase na razão emanada do pensamento de Descartes permeia o pensamento de Pinel, na medida em que, a partir desse conceito de racionalidade, ele passa a buscar em suas observações os motivos pelos quais os alienados carecem de um tratamento específico, de acordo com sua doença mental.

Eu sou Pinel.
Eu sou Pinel.

Pinel desconsiderou as atribuições religiosas à loucura, procurando definir seu conhecimento como sendo cientificamente comprovado através de sua metodologia de estudo, delimitando como causas da loucura a exposição excessiva à estresses sociais e psicológicos e a hereditariedade, sendo que essas enfermidades decorreriam de alterações patológicas no cérebro.

Por meio da já explicada nosografia semiológica, criou uma divisão para cinco tipos de alienação mental: melancolia, mania sem delírio, mania com delírio, demência e idiotismo. A melancolia diz respeito, para Pinel, a um transtorno do pensamento, uma idéia fixa. A mania é atribuída a um transtorno do afeto, ou das paixões. Aqui, trata-se de um não-controle das vontades, um furor maníaco de caráter intermitente, ao passo que a mania com delírio é uma alteração do afeto contínua. A quarta espécie de alienação seria a demência, uma deterioração do pensamento e, por fim, a idiotice aonde nem pensamento ou afeto teve fundamentos.

Apesar da atribuição a Pinel da autonomia da psiquiatria em relação à medicina, e de empregar técnicas revolucionárias, como soltar os grilhões e libertar os loucos das correntes, essa liberdade é dada dentro dos muros dos hospícios, a serviço do desenvolvimento de estudos que possam ampliar os conhecimentos acerca da doença mental. O hospício se torna também um espaço de moralização e laboratório de observação dos comportamentos considerados inadequados. Segundo Foucault ( 1995), a esse “gigantesco aprisionamento moral é que se está acostumado a chamar de a libertação dos alienados por Pinel e Tuke”.

Sanatório aonde Van Gogh passou um período da vida, em Arles - França. São todos bonitos assim?

Sanatório aonde Van Gogh passou um período da vida, em Arles - França. São todos bonitos assim?

A partir das contribuições de Pinel que passa a se justificar a existência do hospital como agente transformador das condutas dos alienados, pois os estímulos são rigorosamente controlados pelo médico, havendo uma atmosfera ideal para a recuperação moral dessas pessoas. Com tal justificativa, o hospital se torna, aos olhos da medicina e da psiquiatria, indispensável para o tratamento das enfermidades mentais, reforçando a prática asilar não só para recuperação dos pacientes, como também instrumento de segregação social, dada a suposta periculosidade dos enfermos.

Confortável?

Diante dessas causas “morais” da loucura, Pinel acredita ser possível revertê-la através da educação. Por isto, emprega processos disciplinares em seus pacientes. O tratamento, enquanto reeducativo, operando ao nível de convencimento do paciente, é dotado de conteúdo moralizante, pois busca a modificação de comportamentos, tidos como inadequados. Outro toque de moralidade dá-se pela reprovação a certos comportamentos sexuais, denominados vícios. “É assim que o médico se torna ordenador não só da vida (psíquica)do paciente mas também o agente da ordem social, da moral dominante”. (PESSOTI, 1996:128)

Nesse desarranjo intelectual ou afetivo não há, necessariamente, uma lesão anatômica do cérebro, daí indicar a medicina moral para seu tratamento.

O tratamento “moral” inspirado em Pinel não é isento de críticas. Como visto, centra-se no poder do médico, como defensor da razão e depositário da norma social. Para Isaias Pessoti, este é o ponto inquietante da práxis psiquiátrica, pois o médico passa a ter um compromisso “com alguma forma de ordem pública, alguma forma de conduta socialmente aprovada e na qual o comportamento aberrante deve ser enquadrado”. (1996:129) E compromissado a manter esse comportamento incômodo longe dos olhos (o que os olhos não vêem o coração não sente mesmo? Coração de quem?) a camisa de força dá conta do serviço, sendo física ou química.

Não para conclusão, mas para manutenção da discussão, vale a pena assistir ao “Documentário dos loucos”. É um documentário muito antigo, produzido pela extinta Tv Machente que mostra uma realidade, infelizmente, não muito diferente da realidade atual.

Também vale a pena assistir e conhecer “O Museu da loucura“:

Anna Maria de S. Marques Cunha & Laís de Almeida Ambrósio

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4 Respostas para “Divisão da alienação mental em espécies distintas

  1. Luciana Caliman

    É ainda e sempre será assustador rever a história da loucura… um museu da loucura em Barbacena…

  2. Adorei o post, e amei o seu cmt, Paula! Que força e verdade nessa expressão, “camisas de força invisíveis”! Se pudermos nos dar conta de que as usamos, e nos dispusermos a libertar – aos outros e, assim, a nós mesmos – talvez possamos começar a construir relações mais inteiras, baseadas no Amor em vez de “posse”…
    Ass: Sérgio, o “romântico incurável”… ;o)

  3. Muito muito muito bacana a discussão que vcs fizeram, meninas. Me inquieto muito com as camisas de força que ainda usamos, essas invisíveis, que vamos predendo outras pessoas, a cada dia mais. É incrível como saber da história faz toda a diferença…

  4. Eu ainda vou ler, mas vcs arrasaram com as imagens, hein? AMEI!

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