Novos sofrimentos físicos e mentais: a cerebrização da Fadiga Crônica

Para essa discussão tomaremos como ponto de partida os estudos feitos por Rafaela Zorzanelli, sua visita a UFES, e sua apresentação no Programa Café Filosófico: Novos sujeitos, novos corpos, novas configurações do sofrimento físico e mental. Na apresentação ela discute a ampliação da compreensão das Síndromes funcionais, para além de uma reducionista explicação biologizante, nos atentado para as inúmeras variáveis psicossociais que perpassam a vida dos pacientes.

Rafaela inicia a discussão pontuando o caráter indissociável entre físico e mental das novas formas de sofrimento, ou seja, denuncia a fragilidade de estipular separação entre o que é da ordem do somático e o que é da ordem do psíquico. Ainda em outras palavras, a dificuldade de se estabelecer limites que não tênues entre a natureza e a cultura. A fim de problematizar o que está em jogo nessas novas formas de padecimento do corpo, que território é esse que possibilitou o surgimento dessas novas concepções de saúde e doença, a autora pensa a ciência médica como um elemento importante na interface adoecimento-saúde. Essa importância é atribuída à potência dessa ciência na fabricação de modos de se pensar essa interface.

A autora analisa que com a retirada do Estado de Bem Estar Social, estamos hoje, mais do que em outros momentos , imbuídos de um desejo de ter que ter; ter que ter iniciativa, ter que ter sucesso,… que remete ao ideal de “homem gestor de sua própria vida”, vida essa de sucessos. Somos incitados ao sucesso e ao mesmo tempo, de forma completamente contraditória, assistimos a um aumento exorbitante da depressão na contemporaneidade. A depressão fere ao modelo ideal de “homem gestor de sua própria vida” que fala de uma cobrança por produtividade, de uma cultura da performance, de padrões de perfeição. Além disso, Zorzanelli (2008) traz as alterações nos processos de organização do trabalho nas décadas de 70 e 80 como uma contribuição que amplia o modo de se compreender a Síndrome da Fadiga Crônica (SFC) para além dos limites biológicos.

“(…) 1980, o padrão de sucesso se alterou ainda mais: dentro da geração do baby boom, as mulheres passaram a trabalhar mais e melhor do que as gerações anteriores para obter empregos em um mercado de trabalho competitivo. Longas jornadas de trabalho, responsabilidades múltiplas e alta produtividade eram a norma. A fadiga é emblemática da experiência social dessas pessoas, e compatível com uma vida excessivamente comprometida, cuja motivação e satisfação nem sempre são diretamente proporcionais ao grau de comprometimento.” (pg. 9)

Em sintonia com a autora, entendemos a organização do trabalho como um processo que corrobora com a (re)significação da vida. Nesse sentido, a organização do trabalho está inserida em um contexto de mudanças políticas, sociais e econômicas que contribuem com a produção de “padrões” de vida a serem seguidos. Pensamos no quanto de sofrimento estes padrões tendem a fabricar nas pessoas, uma vez que eles operam de forma a reduzir toda a multiplicidade dos esquemas de vida, as formas infinitas de ser e estar na vida, ao enquadramento “ideal”, à universalização, à padronização.

O avanço da neurociência na atualidade, o desenvolvimento das tecnologias do imageamento, juntamente com a popularização desse saber da materialidade corpórea traz consigo um nível de segurança e certeza de um achado de várias doenças psicológicas. Segundo Zorzanelli, os instrumentos imagéticos têm um poder de convencimento, atuam como alternativa de reificar doenças sem marcadores somáticos, de modo que é vivida uma ilusão de que a medicina pode responder tudo que é próprio do ser humano, e assim, paira uma crença de que o saber médico possui o entendimento completo de todas as doenças, podendo-se chegar à etiologia somática de todas elas.

Especificamente, no caso da SFC:

o diagnóstico de síndrome da fadiga crônica requer a presença de fadiga persistente ou recorrente, com início definido, e no mínimo, quatro de oito queixas específicas (prejuízo substancial na memória de curto prazo e na concentração, dor de garganta, sensibilidade nos linfonodos cervicais ou axilares, dor muscular, dor nas articulações sem evidência de artrite, dores de cabeça de tipo diferente do que o paciente costumava apresentar antes de ser acometido, sono não restaurador, mal estar pós-exercício físico de duração maior que 24 horas. Os sintomas devem ter a duração de, no mínimo, seis meses. Ainda não houve para a SFC, um marcador ao qual se pudesse associar sua causa, e por isso, ela é considerada um transtorno na(s) função(ões) e não na estrutura do organismo. ( Zorzanelli, p.2 e 3)

Quanto aos estudos, inicialmente era considerada uma doença vinculada a infecções virais. Somente na década de 90 desenvolve estudos por neuroimagem. Resumidamente, segundo o artigo de Zorzanelli e Ortega, a história dos estudos da SFC está perpassada pelos seguintes autores e conclusões de sua pesquisas: Buchwald et al, concluíram que alterações encontradas podiam estar relacionadas a processos inflamatórios no Sistema Nervoso Central (SNC), mediadas pelo Sistema Imunológico; Schwartz et al, verificou que alterações no lobo frontal e temporal; Costa et AL, concluíram que pacientes com SFC têm um padrão particular de hipoperfusão do tronco cerebral; Greco et al, afirma que nenhum padrão específico de anormalidade na matéria branca pôde ser encontrado nos pacientes com SFC; Tirelli et al, obtêm como principal achado a hipoperfusão do tronco encefálico nos pacientes de SFC, que passou a ser considerado, para esse grupo de autores, um marcador da SFC, e tendo se tornado a partir de então, um dos supostos achados somáticos para a síndrome; Lange et al, constataram a presença de anormalidades cerebrais por ressonância magnética nos pacientes com SFC; Cook et al, procuraram entender melhor a significância de anormalidades cerebrais detectáveis por ressonância magnética na SFC, examinando a relação entre alterações identificadas por essa técnica e o estado funcional auto-relatado de 48 sujeitos com SFC. Os resultados demonstraram que a presença de anormalidades cerebrais é significantemente relacionada a relatos subjetivos sobre as funções físicas, e que os sujeitos com SFC e com anormalidades cerebrais detectadas na ressonância magnética relatavam maior prejuízo físico do que os pacientes sem essas anormalidades; o estudo de Schmaling et al, conclui que são necessárias outras pesquisas considerando a perfusão cerebral dos sujeitos com SFC.

Com isso, toma força o diagnóstico médico, e apesar de altas taxas de comorbidades da SFC com transtornos psiquiátricos, explicações e pesquisas que não da área médica, esclarecimentos psicossociais, construções sócio-históricas são “boicotadas”, visto que são encaradas estigmatizantes e contra-causa, já que dificulta algumas lutas por benefícios. Se a SFC é uma doença orgânica, obter um diagnóstico psiquiátrico é denegar a realidade da doença (Zorzanelli, p.8), enquanto que o diagnóstico médico indiretamente “ausenta” a culpa do paciente.

Curiosamente, parece que quanto mais máquinas auxiliam no diagnóstico, menos legitimado torna-se a experiência de sofrimento do paciente quando esse não possui “marcas visíveis”. Zorzanelli (no café filosófico) afirma que muitas vezes a gente confia no olho infalível das máquinas a tal ponto que quando elas não vêem nada, parece que nada ali existe. Com isso, as explicações biológicas são compradas pelos pacientes quase sempre sem questionamentos, o que pode estar relacionado ao fato de que, sobre as doenças que não possuem agentes etiológicos evidentes, recai a moral de que a volição do sujeito pode ser causa da doença. Cabe ao próprio, portanto, livrar-se dela, ou seja, a carga da responsabilidade pela doença recai severamente sobre o sofredor. E se esse não o consegue é porque é fraco ou não quer, e tem outras intenções com a morbidade.

Devemos chamar atenção para o uso que se faz dos achados, atentando principalmente para o modo como os atores sociais fazem uso dessas informações, visto que pesquisas atuam na produção da doença e também do paciente.

Uma das formas de lidar com essa ilegitimidade é combater as explicações psicogênicas buscando mecanismos somáticos que justifiquem a doença. Desse modo, afasta-se a presumida origem psicológica das queixas, e a explicação orgânica dos sintomas é privilegiada. A adesão, por parte dos pacientes, à busca científica de evidências é uma conseqüência lógica desse processo, porque ela permite contestar a ilegitimidade da SFC. (ZORZANELLI, p.9)

No entanto, mesmo com todos os avanços, há muito que se desvendar a respeito do corpo. Há uma série de doenças, que não se tem registros etiológicos de substratos físicos e/ou achados neuroquímicos, para os quais se possam justificar uma gama de sintomas. Embora se tenha inúmeras pesquisas que objetivam encontrar esses substratos físicos. Devemos questionar se é suficiente explicar essas doenças tão relacionadas a vida psicossocial, apenas pelo saber biomédico. Além disso, consideramos de fundamental importância para o diagnóstico estar atento ao contexto no qual apareceu o sintoma ao paciente.

REFERÊNCIA:

ZORZANELLI, R.T. Imagens cerebrais e o caso da Síndrome da Fadiga Crônica. Disponível em: id_artigo=3055º> Acessado: 27/10/2009

ZORZANELLI, R.T. Novos sujeitos, novos corpos, novas configurações do sofrimento físico e mental. Vídeo do café filosófico. Disponível em: http://www.cpflcultura.com.br/video/integra-novos-sujeitos-novos-corpos-novas-configuracoes-do-sofrimento-fisico-e-mental-rafaela Acessado em: 06/12/2009

Por: Brunella Muniz, Giselly Martins e Rebecca Vitória

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4 Respostas para “Novos sofrimentos físicos e mentais: a cerebrização da Fadiga Crônica

  1. liamar de oliveira silva

    o artigo e muito intereçante nois da um entendimento melhor sobre a abrdagem deste assunto

  2. Olá Luciana! Nós gravamos sim.. podemos disponibilizar p/ vc e p/ quem quiser assistir ok.
    Bjos

  3. Luciana Caliman

    Vcs esqueceram de colocar os nomes de vcs?

  4. Luciana Caliman

    Ufa! Terminamos este primeiro encontro?! Acho que sim.

    Vcs gravaram o café filosófico da Rafa? Gostaria de ter acesso e de ver com quem tiver interesse…

    Mas e agora? O que será do blog? Continuamos com ele? Tenho minhas idéias, mas queria ouvir as sugestões de vcs…

    Também por isso, não vou fazer despedidas e nem finalizações…

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