Usos e discursos sobre a Ritalina no Brasil.

Na aula do dia 20 de outubro contamos com a presença da pesquisadora Cláudia Itaborahy ¹ – via skype.  As questões aqui discutidas baseiam-se na análise e exposição de sua tese de mestrado “Usos e Discursos sobre a ritalina no Brasil”.  
 

Ritalina: psicoestimulante de afetamina

Ritalina: psicoestimulante derivado de afetamina mais consumido do mundo.

No Brasil, a produção de metilfenidato passou de 40 kg em 2002 para 226 kg em 2006. Este aumento da produção interna acompanha um fenômeno mundial. O principal argumento encontrado nos textos sobre a Ritalina, para justificar o elevado aumento da produção e consumo do metilfenidato no Brasil, é uma maior divulgação do TDAH, tanto para médicos quanto para o público em geral. Embora seja um medicamento comercializado desde os anos 50, a Ritalina ficou conhecida nos últimos anos por sua associação ao TDAH.  

É importante destacar que o uso da Ritalina não está vinculado diretamente ao diagnóstico de TDAH, o medicamento não é recomendado em todos os casos em que o transtorno é diagnosticado. Entretanto, os efeitos rápidos na remissão dos sintomas de hiperatividade e desatenção, dentre outros fatores, faz com que o medicamento seja a primeira opção terapêutica para os problemas de atenção que comparecem nas escolas, na clínica ou nos ambientes de trabalho.  

E o que se compreende por “atenção”? O que subjaz no entendimento “déficit de atenção?” 

É importante alinhavarmos a via terapêutica que o medicamento constitui e a produção de modos de vida que compõem a sociedade contemporânea. A multiplicação de diagnósticos de TDAH aponta para a importância de certas normas de nossa cultura e para a dificuldade em atender as expectativas que elas encarnam: necessidades de autocontrole e concentração diante das solicitações e exigências ao mesmo tempo mutáveis e que não param de cessar, além de um bom desempenho social. O problema é diretamente colocado como incidindo sobre a atenção que é requerida no processo de realização das tarefas. Não à toa a escola comparece estabelecendo relações de causalidade entre sintomas e fracasso escolar, solicitando um sentido para os “desajustes” dos alunos na taxação do diagnóstico.  A utilização do medicamento como principal via terapêutica aponta para um funcionamento da atenção na subjetividade contemporânea que não é tratado como um problema de ordem moral, sendo antes tomado como um transtorno que exige tratamento (Crary, 2001 apud Kastrup 2008).  

Diller (1996, apud Itaborahy, 2008) sugere que, cada vez mais, a sociedade tem interpretado problemas de desempenho como doenças. Além disso, o papel tanto das revistas psiquiátricas quanto da grande mídia tem se referido, via de regra, ao transtorno como um distúrbio neurológico, validando assim o uso do medicamento para o tratamento. Trata-se de produções da compreensão do que sejam doença e sofrimento baseados em um modelo fiscalista da realidade corporal. 

Dupanloup (2004, apud Itabprahy,2008), nos propõe interrogamos não somente a validação científica das origens do TDAH, mas também as “condições sociais  de sua difusão” (p.13). “Quem publica hoje no Brasil sobre este transtorno e seu tratamento está necessariamente inserido em um grupo de pesquisa. Existem hoje cinco principais grupos de pesquisas sobre o TDAH, todos sendo participantes da ABDA” (p.13). Os grupos são: GEDA (Grupo de Estudos de Déficit de Atenção, ProDAH (Projeto de Déficit de Atenção e Hiperatividade – adultos), Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, ADHDA (Ambulatório para Distúrbios Hiperativos e Déficit de Atenção, e UNIAD/UNIFESP (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas. Cabe ressaltar que todos estes grupos têm ligação com laboratórios farmacêuticos, seja por meio do recebimento de patrocínios, ou por contar com autores que são palestrantes destes laboratórios. Sendo assim, temos aí um conflito de interesses.

O financiamento dos laboratórios fabricantes para as pesquisas sobre os seus produtos não é um problema em si mesmo. Pesquisas necessitam de financiamento, laboratórios necessitam assegurar seu produto e suas vendas. Mas o fato de os resultados das pesquisas sempre coincidirem com o aumento de usuários de medicamento faz com que levantemos questões sobre a ética das pesquisas. Com a possibilidade de um direcionamento dos resultados tão presente com a participação direta dos laboratórios, inclusive como autores, acreditamos que os conflitos de interesse não deveriam deixar de ser apresentados, questionados, controlados e avaliados, por se tratarem de questões éticas graves. O suplemento do JBP sobre o TDAH na prática clínica, de 2007, é inteiramente patrocinado pelos laboratórios: dos artigos às propagandas. Como afirmar que existem outras formas de aliviar o sofrimento dos sujeitos em tal contexto? 

A autora propõe pensarmos a respeito destes grupos de apoio ao TDAH existentes, haja visto que a vinculação entre ritalina e TDAH tem aparecido cada vez mais como uma descoberta verdadeira e natural. Todavia, cabe atentar para o jogo de forças, para as questões  políticas, sociais e econômicas que estão implicadas nestes usos e discursos da ritalina.  Além disso chama a atenção para o monopólio dos meios de comunicação destinados aos especialistas. De acordo com sua análise existem fatores problemáticos: facilidade em publicar material cujo conteúdo casa com os pressupostos biológicos que não são compartilhados por todos os especialistas; e a veracidade da opinião ser balizada pela quantidade de publicações.

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Outro ponto interessante de se observar diz respeito a impressa brasileira estar bastante vinculada às publicações de jornais e revistas estrangeiros, sobretudo inglesas e norte-americanas. Tal questão é problemática se considerarmos que tal globalização onde a informação corre de mão única, pode calar especificidades e resistências ao discurso hegemônico.  

Há que se ressaltar, entretanto, que as discussões sobre os usos da ritalina e sobre o diagnóstico do TDAH, apontam não para a evidência de uma descoberta sacralizada, e sim para um campo em aberto, onde o consenso não está instaurado (na contramão do que evidenciam as publicações especializadas analisadas por Itaborahy).  

Observa-se, por exemplo, que os efeitos colaterais do medicamento ritalina são tratados de forma bem distinta pela comunidade científica e imprensa leiga, prevalecendo na primeira uma tendência a contrapor os efeitos colaterais aos inúmeros benefícios do medicamento e na segunda a exposição dos riscos aparece mais aberta, crítica e heterogênea. 

Caliman (2006), atenta para a produção do que ela chamou de “biologia moral da atenção”, que se revela na intensificação dos estudos de atenção e no seu controle e gestão, tomados como objeto pelas tecnologias morais, sociais, econômicas, médicas e psicológicas. Atenta ainda para o fato de que os “diagnósticos médicos e psiquiátricos raramente emergem e se legitimam apenas como resultados de descobertas científicas, sendo produtos circunstâncias históricas e sociais complexas, internas e externas ao campo médico” (p.565).

Há que se levar em conta que o aumento da produção de medicamentos acompanha, para além do interesse econômico, uma demanda de alívio e sentido. A autoridade outorgada à medicina e suas especialidades faz circular discursos que favorecem uma compreensão “biologizante” das perturbações . A banalização psiquiátrica parece advir de uma ampliação e penetração dos diagnósticos nas perturbações mais ou menos cotidianas da vida das pessoas. Há que se discutir e resistir ao processo de ampliação desmensurada dos diagnósticos e da medicalização da vida que vem se produzindo no contemporâneo. 

SUGESTÕES DE LEITURA: 

Caliman, Luciana Vieira (2006). A biologia moral da atenção. A constituição do sujeito (des)atento. Tese de Doutorado não-publicada, Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Instituto de Medicina Social, RJ.

CALIMAN, Luciana Vieira (2008). O TDAH: entre as funções, disfunções e otimização da atenção. Psicol. estud.,  Maringá,  v. 13,  n. 3, Sept.  2008 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141373722008000300017&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 23 jun. 2009.  doi: 10.1590/S1413-73722008000300017. 

KASTRUP, Virgínia (2005). Políticas cognitivas na formação do professor e o problema do devir-mestre. Educ. Soc.,  Campinas,  v. 26,  n. 93, dez.  2005 .   Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010173302005000400010&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em 23  jun.  2009.  doi: 10.1590/S0101-73302005000400010.

Kastrup, V. (2004). A aprendizagem da atenção na cognição inventiva. Psicologia & Sociedade, 16(30), 07-16.

POR CRISTIANE BREMENKAMP, ELLEN HORATO E ALINE TRAVAGLIA.

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9 Respostas para “Usos e discursos sobre a Ritalina no Brasil.

  1. eu gostei da tira, gostei demais! tirando a legenda embaixo.: Por que deixar o governo drogar suas crianças? O governo não fornece metilfenidato no SUS e nem recomenda o uso. O máximo que ele fez foi permitir a coemrcialização e ainda sobre restrições. o governo faz a parte dele, quem não faz é a indútria farmaceutica e os médicos

  2. Luana Vianez Faria

    Oi Luciana,
    Também tenho interesse em ler sua dissertação. Pode me enviar por email?
    luanafaria@hotmail.com
    Grata!
    O trabalho está realmente mto bom, a discussão é bem pertinente!
    Abraço!

  3. Interessante isso… o indivíduo anuncia as caixas de Ritalina aqui, só porque tem “Ritalina” na URL… Seu relato, entretanto, nos traz em primeira mão uma atitude de “resistência” ao abuso da medicação: parando por conta própria o remédio, por considerar os efeitos colaterais mais significativos do que o efeito benéfico…

  4. Olá pessoal, tenho duas caixas de Ritalina LA 20mg, mas nao vou usar mais, então quero vende-las, vendo pelo preço que comprei, R$150,00 cada uma, mais as despesas de envio, se for por entrega normal, eu pago as despesas, pois sao baratas, mas por sedex fica à cargo do comprador. A Ritalina me foi muito benéfica, melhorei bastante, inclusive hoje mesmo sem, eu ja me sinto melhor, usei por 4 anos, mas ultimamente quando tomo, meu humor tem variado, às vezes fico irritadissimo, e isto está me prejudicando, entao decidii que nao vou tomar mais e vou ficar so com a terapia mesmo. Ainda tenho duas caixas fechadas e uma eu tomei 7 comprimidos, se alguem quiser entre em contato comigo, meu msn é marcelo15123@hotmail.com e meu cel é 64 92654906.
    Moro em Anapolis-GO

  5. Luis Eduardo Aragon

    Luciana, meu email continua o mesmo luis.aragon@uol.com.br
    Gostaria muito de ler sua dissertação e a da Cláudia.
    Ficarei muito feliz em participar deste movimento de vocês! No momento em que achar que cabe uma conversa é só chamar.
    Mais uma vez parabéns a todos pelo trabalho.

  6. Esse vídeo dos Simpsons está impagável! Fiquei rindo sozinho um tempão!!!
    Sinal de que não estamos mesmo sozinhos na avaliação crítica dos saberes medicalizantes…

  7. Luciana Caliman

    esqueci de dizer, muito bom meninas. Foi legal demais a aula!

  8. Luciana Caliman

    Oi Luis,
    Bom ver seu nome por aqui! E bem vindo ao coletivo! Posso te mandar minha tese e o texto da Claudia sim, seu email continua sendo aquele da época da ANPEPP?
    Na última aula teremos a presença, por skype, da Rafaela Zorzanelli, que escreveu uma tese sobre a fadiga crônica. Falei com vc sobre ela. Seria ótimo se um dia vc pudesse também fazer um diálogo com a gente? Que tal?

  9. Luis Eduardo Aragon

    Quero parabenizár o coletivo do “medicalização” pelo excelente espaço que criaram com a Luciana. Espaço de reflexão e de ação micropolítica nestes tempos de hegemonias tão insidiosas quanto imperativas. Tenho aproveitado muito das leituras e espero que continuem a produção.
    Há como ter acesso às dissertações da Luciana e da Cláudia Itaborahy?

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