Insônia e Transtorno de Pânico: Doenças da Sociedade Contemporânea

A sociedade contemporânea está sempre em intenso movimento. A vida tenta acompanhar a velocidade da produção das informações e o mundo agitado, o que leva a uma corrida desenfreada para atingir às exigências e ideais quase inalcançáveis impostos ao sujeito! O contexto da luta pela sobrevivência e dentro do mercado de trabalho muitas vezes leva o indivíduo a se submeter ao excesso de cobranças, a um ritmo acelerado e à alta competitividade. O controle sobre o tempo tornou-se uma arte necessária, como relata Pereira, 2003:

”Cada vez menos está previsto parar. O ócio tornou-se uma falha de caráter ou traço criticável de um sujeito, de um grupo ou de uma nação. Dormir parece ir na contracorrente da história. Tempo é dinheiro e não há tempo a perder.”

Surge então um paradoxo: o sono, que agora  pode ser visto tanto como situação de desvantagem em relação à concorrência, quanto necessário como forma de restabelecer e recuperar o corpo para a jornada de trabalho do dia seguinte.

Como reflexo de todo esse contexto emergem sintomas típicos da contemporaneidade como a insônia, que acaba trazendo sofrimento. Nesse sentido, entram em cena então os medicamentos, necessários a tornar os sujeitos aptos a produção, competição, e consumo, controlando o ritmo de trabalho e o rendimento.

“Remédios para dormir e remédios para manter-se desperto, apesar da exaustão física e psíquica, convivem lado a lado no mercado psicofarmacológico, retratando uma patética condição de mal-estar e de contradição interna de nossa cultura.” ( SANTOS, 2007)

Paralelamente ao problema de insônia, existem outros males do mundo contemporâneo, dentre os quais podemos citar a síndrome do pânico e as fobias, transtorno de déficit de atenção e hiperatividades, dor crônica, e distimias.

Devido a essa necessidade de agilidade, as formas de se relacionar acontecem de forma cada vez mais superficial e passageira, acompanhando a velocidade e ritmo da internet.  O sentimento de não pertencimento e o desamparo social ficam cada vez mais acentuados, devido a não enquadramento nos modelos ideais da sociedade vigente, que, entretanto apresenta até uma forma de ser desviante, como explicitado a seguir:

“(…) a cultura, de certa maneira, nos fornece regras para as formas de sofrimento psíquico, ou seja: não se é louco como se quer, mas com base nas regras ditadas por uma rede discursiva social. Dessa maneira, acreditamos que seja essencial, na exploração das matrizes culturais do pânico, pensar que nossa cultura contemporânea nos fornece regras para os sujeitos sentirem pânico. “

No caso da crise de pânico, é caracterizada por uma sensação de perda de controle, e uma impressão física de morte. Os sintomas presentes no DSM IV se referem a: sensação de estar sufocado ou ter um bolo na garganta, mãos e pés molhados e frios, formigamentos nos braços, pernas ou nos rostos, zoeira, zumbido ou pressão nos ouvidos, suor ou tremedeira generalizada. Essa perda de controle muitas vezes está associada ao sujeito não saber distinguir o que sente. O diagnóstico pode trazer um pouco mais tranqüilidade, pois já consegue identificar o que sente, é uma confirmação externa para seu sofrimento. Essa tranqüilidade pode vir por acreditar que se trata de uma doença geneticamente determinada, não é fresca, ou louca! Sendo assim pode haver uma desculpabilização do sujeito, e por consequência uma passividade, uma vez que essa síndrome é vista pela classe médica como genética e unicamente orgânica.

De posse desse diagnóstico, e em busca de proteção e acolhimento, pode acontecer uma identificação dos sujeitos através de suas patologias, uma “identidade sindromica”, como afirma Santos, 2007. Nesses grupos os sujeitos trocam experiências e informações, e constroem uma rede de solidariedade. A diferença é que em algumas dessas biossociabilidades não se oferecem apenas como um abrigo, um lugar de pertencimento, mas também estimulam o sujeito não se acomodar, a buscar uma ressignificação de seus sintomas, o restabelecimento de sua normatividade, um outro sentido para o conceito de saúde.

 

Por Lorrayne Pires, Mariana Romaneli, Roberta Gaier

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5 Respostas para “Insônia e Transtorno de Pânico: Doenças da Sociedade Contemporânea

  1. Pra quem gosta do assunto mas não estuda psicologia, o blog é bem legal pois esclarece várias coisas.
    Parabéns.

  2. Luis Eduardo Aragon

    Sergio, tenho só algumas idéias em processo, mas penso num movimento progressivamente mais esquizo e menos paranóide. Em uma des-confiança com relação às próprias percepções e sensações, o que mobiliza angústias intensas, “impensáveis”, e portanto ainda sem condições de projeção. Mobilizando o limite psico-fisiológico e convidando um olhar possível como abrigo, ou “olhar que realmente veja” a singularidade e legitimidade daquela expressão (o que normalmente não ocorre).
    Gosto da imagem da subjetivação enquanto dobra do Fora, como proposta por Deleuze em seu Foucault e, para pensar com a Luciana, creio que se age completamente atravessado pelo diagrama de forças do contemporâneo (o que implica um Eu unificado na figura de consumidor), mas quando se é convidado à apresentação singular (por falência dos modelos ou por aquilo que Guattari chamou de “afetos existenciais” – de perda, nascimento, morte), ou seja, aos modos como as dobraduras se fazem, em quais circunstâncias, na presença de quem… aí sobrevem o medo, as agonias, o pânico.

  3. Luciana Caliman

    Pois é, esse excesso de apelo ao eu (biológico ou não). Eu me controle, eu me vigio e ao mesmo tempo eu sou o responsável por tudo, pelo meu sucesso, pela minha história, pelo meu fracasso… pouco se pensa em e como coletivo. E quando se pensa, parece que, necessariamente, não existe um eu, um singular possível.

  4. Pois é, Luis Eduardo, esse efeito de “internalização” das pressões e cobranças é extremamente eficaz! E não é de hoje! Baste reler Weber (“A ética protestante e o princípio do capitalismo”) para perceber que o processo vem se dando há muito tempo. Entre os médicos, são comuns os relatos de sentimentos de culpa por estarem, por exemplo, na praia, com a família, num final de semana (como se não tivéssemos o direito ao descanso semanal), e as “férias” da maioria dos colegas são tiradas parea ir a congressos!
    Quanto ao pânico, eu tb tenho percebido (também em casos de TOC) os relatos de ter a sensação de seus sentimentos e idéias estarem sendo notados por todos, numa espécie de delírio paranóide que, no entanto, se diferencia dos quadros psicóticos…
    Vc tem alguma hipótese para os mecanismos dessa peculiaridade?

  5. Luis Eduardo Aragon

    Muito bom o texto! São tantos assuntos importantes…
    As vezes pode parecer que o peso do contemporâneo é grande demais, mas creio ser importante não nos rendermos às “paixões tristes” e podermos ver – como indica o texto ao final – as condições de produção de sentidos e variações em direção à alegria.
    O Paul Rabinow tem um belo texto sobre biossociabilidade “Artificialidade e iluminismo: da sociobiologia à biossociabilidade” no livro Antropologia da Razão (Relume Dumará, RJ, 2002).
    Uma questão que me intriga é que esta pressão por naturalização e administração do tempo muitas vezes não parece vir “de fora” como necessidade de sobrevivência, mas “de dentro” como um auto-policiamento, gerenciamento e cobrança.
    Outra questão que tenho percebido na clínica é que o pânico parece expor uma profunda desconfiança do sujeito quanto à capacidade dos outros realmente percebê-lo. É como se se apresentasse insistentemente um descolamento entre o que se sente e como se é percebido, gerando um enigma de esfinge para si e os outros.

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