Uma Análise Epistemológica do Diagnóstico de Depressão

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A depressão é o 2° maior problema de saúde pública, e é considerada a doença dos tempos atuais, refletindo a relação que a sociedade estabelece com o bem viver.

E ai, a pergunta que nos vem é, o que mudou dos tempos passados para estes? As pessoas, o mundo ou os sintomas que foram descobertos?

A depressão se configura como uma experiência subjetiva criada em todo e qualquer agrupamento humano, por este motivo deve ser analisada de forma extremamente cuidadosa através de uma perspectiva pluralista, ou seja, uma análise grupal e compreendida em suas diferentes dimensões, biológica, fenomenológica, psicodinâmica, cultural, sócio-histórica e ambiental, segundo Benilton Bezerra.

Os estudos científicos atestam que a baixa da serotonina esta envolvida diretamente com os sintomas depressivos, entretanto, uma doença psiquiátrica não apresenta “marcadores biológicos” como as doenças infecto-contagiosas, ou seja, para estas é possível  identificar através de exames a existência de bactérias ou parasitas, já para a primeira isto não ocorre, pois este “marcador biológico” está ausente. Assim, o que permite a explicação da depressão não é o diagnóstico e sim a sua terapêutica. Interessante pontuar que há ai uma inversão, neste tipo de doença é através dos medicamentos que se inicia a busca por uma causa explicativa.

Logo, mesmo havendo inconsistência nas informações referidas à causa da depressão e a sua localização no cérebro, os estudos dedicados a produzir novos anti-depressivos não cessam e aumentam a cada dia.

Os psicotrópicos permitem criar a ilusão de que as patologias mentais em geral, e os sofrimentos psíquicos em particular, ingressaram na lógica da localização própria dos estudos anatomo-patológicos.” (Caponi, 2009).

A realidade traduz um panorama onde a maioria das prescrições medicamentosas da depressão não é feita por psiquiatras, mas pelos mais diversos profissionais da área da medicina, acarretando numa certa banalização do tratamento da doença, pois outorga a ela apenas um fator corpóreo.

Dessa forma é consideravelmente fácil responder a seguinte pergunta: Por que a depressão se tornou uma epidemia?

A ausência de um olhar mais apurado acerca de uma perspectiva pluralista sobre a depressão, e em contrapartida, um predominante saber médico onde os sujeitos são examinados apenas por um viés biológico, como sujeitos cerebrais, produz uma popularização do diagnóstico desta doença. Além disso, a ambigüidade científica, ou seja, a falta de limites epistemológicos bem definidos para esta patologia permite a multiplicação desses diagnósticos, que podem ou não ser verdadeiros.

Somado a isso, a normatização do bem estar também aparece como um potencializador da depressão, pois o modelo de sujeito autônomo que é vendido hoje mostra indivíduos regulados pelo bem estar absoluto, onde o sofrimento é intolerado e perde a sua “utilidade”. “Criar a ilusão de que viver é indolor” (Caponi, 2009 apud Valenrim, 2007). Além disso, o caráter de liberdade atualmente construído perpassa de forma incisiva a subjetividade, o que configura o sujeito como único e maior responsável de seus atos e decisões.

Entretanto, o ser humano, como ser complexo e múltiplo, mas não onipotente, não consegue dar conta de tudo, ou seja, é impossível a ele permanecer em um papel utópico e ideal de vida perfeita. Isso se configura como reflexo dos principais motivos e sentimentos característicos da depressão, a insuficiência do viver, o esvaziamento da existência e o prevalecer da incerteza.

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Quando a gente pode desejar tudo, numa sociedade que prega a liberdade e a autonomia, a gente se perde, e não sabe mais o que desejar.

Por Ana Carolina Porfírio, Daniele Bahia e Renata Gastmann.

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3 Respostas para “Uma Análise Epistemológica do Diagnóstico de Depressão

  1. eu só entrei aqui para fazer um trabalho nada +!!!

  2. Luciana Caliman

    Uma questãozinha meninas… “A depressão se configura como uma experiência subjetiva criada em todo e qualquer agrupamento humano”… bom, acho que não é bem assim. Não é por acaso que vcs também dizem que ela é uma doença dos tempos atuais.. seria diferente dizer que a experiência subjetiva do sofrimento está presente em todo e qualquer agrupamento humano, mas ainda assim, sofrer no Brasil, no século XXI, na UFES, em Vitória… não é o mesmo que sofrer no século XVIII, na Africa, na Indonésia… e aí, à pergunta “o que mudou dos tempos passados para estes? As pessoas, o mundo ou os sintomas que foram descobertos?”.. poderíamos dizer que tudo isso mudou em certo grau, as pessoas mudam, o mundo muda, e novos sintomas ou significações do sofrer são também criadas…

  3. Sérgio Werner Baumel

    Adorei os quadrinhos! :o)
    Em primeiro lugar, mostra um aspecto pouco lembrado, mas digno de nota: os “ganhos secundários”, que são – é claro – muito mais importantes na “distimia” e na “depressão reativa”. Esses, a meu ver, provavelmente são os grandes responsáveis pela “epidemia” de depressão, e não a “depressão endógena”… mas não tenho como fundamentar essa minha impressão.
    Para mim, os “distímicos” têm mais em comum com as pessoas com transtornos de personalidade do que com os que têm transtornos de humor. Daí ser tão difícil melhorarem: quando começam a responder, por exemplo, a uma medicação, logo queixam-se de efeitos colaterais, e acumulam mais um tratamento ineficaz em sua “coleção de figurinhas”…
    Outra questão, mais relacionada às nossas discussões, é a tendência à “proibição à tristeza”. Em minha prática clínica não vem sendo incomum pessoas buscando um tratamento médico (já com a intenção de buscar um medicamento) para deixarem de sentir as emoções negativas próprias da vida! Um exemplo: uma jovem, casada há menos de um ano, que descobriu que seu marido a vinha traindo desde o início do namoro. Na mesma semana em que descobriu a traição – e separou-se dele – já me procurou na busca de um medicamento para eliminar seu sofrimento! Entre seus argumentos, dizia que não tinha ânimo paratrabalhar, e tinha receio de perder o emprego…
    Para finalizar, gostaria de, mais uma vez, lembrar da obra de Huxley (“Admirável Mundo Novo”), recomendando sua leitura que, nos dias atuais, parece-me cada vez mais pertinente! Sempre que penso nas questões contemporâneas relativas à depressão, me pergunto se o verdadeiro nome do “Prozac” não seria “Soma”…

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