Making Up People – Constituindo Sujeitos

82618812Os aspectos aqui debatidos têm por base as discussões do texto “Making Up People” de Ian Hacking. E de entrevistas realizadas na série “How to think about science” do programa “Ideas” com Ian Hacking e Allan Young.

Como pensar sobre a ciência? Uma maneira de decodificar o mundo (seria ele um poço de códigos?), descobrir o que está embaixo dos panos e invisível aos olhos? Uma forma de interpretar, enxergar, avaliar a realidade, e também, porque não, criá-la? Quantas vezes paramos para pensar sobre isso? Não é um pouco esquisito como nós falamos tão naturalmente sobre a ciência, suas antigas teorias e novas “descobertas”? Já pararam pra pensar na história da ciência? Ela tem uma, vocês sabiam? E vai além da maçã na cabeça de Newton!

A novidade é que muitos estudiosos desse campo recente chamado Science Studies (estudos da ciência, tradução literal) começam a compreender a ciência enquanto uma produção ou criação, que intervém no nosso mundo, na nossa realidade e na vida das pessoas. Assim, o que estamos acostumados a chamar e ouvir chamar de ‘descoberta científica’, esses estudiosos chamam de produções científicas. Dá outra sensação, não dá? A ciência passa a ser não apenas um “pensar sobre o mundo – ela constrói e reconstrói o mundo (…) é uma filosofia experimental”. (KENNEDY, P., Idéias). O fato de ser construção não quer dizer que não seja real, muito ao contrário, a ciência, suas teorias e experimentos estão a todo tempo produzindo uma realidade vivenciada por todos. E afirma que produtos – científicos ou não – não precisam ser materializados somente, pois também as idéias produzem realidades.

“Muitos experimentos criam fenômenos que não existiam anteriormente em um estado puro. E se isso é verdade para as coisas que fazemos, também o é no que diz respeito às nossas capacidades mentais. Novas formas de pensar também emergem com o tempo e por sua vez mudam os termos através dos quais o mundo aparece para nós.” (HACKING, I., Idéias)

Temos que atentar para o fato de que um conjunto de fatores sociais, econômicos, políticos, ambientais, e psicológicos de um determinado povo produzem ali uma realidade específica, uma forma de ver e viver a vida. A história de uma sociedade que é passada para as gerações posteriores é de grande influência para se estabelecer crenças e conhecimentos comuns a todos. É o chamado ‘Coletivo de Pensamento’ e, no caso dos países ocidentais, este coletivo está intensamente ligado às produções científicas.

Um dos principais fatores para o estabelecimento de certa forma de pensar vigente hoje é a construção do conhecimento probabilístico. Na França do século XVIII, percebeu-se que havia um padrão numérico para variados fatos que ocorriam aleatoriamente, tais como crimes, suicídios e prostituição. Isso realmente mudou a forma de ver as coisas, pois fatos aleatórios começaram a ser vistos como regidos por algum tipo de lei. Assim, gradualmente as pessoas começaram a viver, tomar decisões, e avaliar o futuro pensando na possível chance das coisas darem certo ou errado.

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Também a partir daí começou-se a calcular e pensar em termos de normalidade e anormalidade. A distribuição estatística da curva normal é um cálculo matemático probabilístico. Porém, as categorias de classificação das pessoas que estão dentro ou fora dessa curva tornaram-se mais do que isso, produziram formas de ser/viver. “Categorias científicas e estatísticas nunca são neutras. As pessoas começam a se adaptar às categorias nas quais são descritas e classificadas.” (CAYLEY, D., Idéias). Assim, o conceito de normal foi gradativamente saindo do campo da estatística, para se tornar um valor moral.

A naturalização desse conceito é o que mais nos assusta. Tudo o que se cria social, psicológica e patologicamente vem sendo reduzido à essa comparação abstrata com o conceito de normal, à esse parâmetro que sequer existe enquanto real. O sujeito produzido nessa relação com uma suposta normalidade acaba por se achar desenquadrado nessas classificações que não dizem do seu real, mas sim de um imaginário inatingível. Pois as categorias criadas são muitas vezes padrões hipotéticos, baseados em diversos casos específicos e diferentes entre si. Toda essa situação tem gerado uma insatisfação e angústia de sermos/estarmos inadequados, desviados, sensação que tem, em muitos casos, paralisado as pessoas, e fazendo-as procurar respostas e soluções de cunho médico/biológico/materialista/farmacêutico.

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É importante avaliar: quais parâmetros de normalidade são esses? De onde vêm e para que servem? Porque algumas características são consideradas positivas e outras não? O que elas têm que pode estar produzindo/re-afirmando a vida, da forma que ela é hoje colocada? Quem são as pessoas que não se encaixam? Onde estão? Onde moram? Elas têm idade, sexo, cor, renda mensal?

E enquanto aos medicamentos que prometem mais: agilidade, produtividade, atenção, focalização, concentração, energia, felicidade, desempenho sexual, disposição, ‘saúde’ física (acrescida de boa forma)? O que tais pílulas estão produzindo? Qual o alvo delas? Quem as consome? Elas são procuradas em busca de uma cura? Ou de uma melhora? São remédios para doenças ou alternativas para atender uma insaciável demanda social de “quanto mais, melhor”?

Não estamos querendo dar e nem receber respostas certas ou erradas, estamos propondo questionamentos. Análises, reflexões. A busca por respostas deve ser feita no cotidiano, partindo da realidade vivida por cada um de nós. O bom é que para cada nova resposta, surgem novas perguntas!

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Por: Ádila Fardin Pandolfi, Paula Maria Valdetaro Rangel, Priscilla Teixeira P. F. Neto.

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2 Respostas para “Making Up People – Constituindo Sujeitos

  1. Luciana Caliman

    Pois é Sérgio, mas também fico pensando que em meio ao consumo de identidades descartáveis somam-se o consumo de identidades fixas, imóveis e, neste caso, refiro-me ao fenômeno das bio-identidades que estamos discutindo. Parece que a coisa gruda mesmo, aliás, é bios, tá no corpo, no meu corpo e no corpo daqueles que se identificam com a minha categoria, o meu diagnóstico… e então a gente tem uma janela de possíveis muito estreita, nada plural, bastante universal, que te diz quem vc é, como se comporta, quais as chances de se dar bem ou mal, quais os seus futuros possíveis… identidades seguras são cada vez mais desejadas e estão cada vez mais disponíveis…

  2. Sérgio Werner Baumel

    Um tanto tardiamente, mas não pude me furtar a algumas reflexões…
    Novamente, quero defender a idéia de que *sempre* se construiu, se “inventou” o que seria “certo” ou “errado” para se ser, como humano. A palavra (e a noção a que ela remete) “normal” é recente, derivada da visão estatística, porém a divisão entre “certo” e “errado” existe desde a antiguidade.
    Até o Modernismo, quem ditava e construía (“made up people”) eram os detentores do poder religioso, na maioria das vezes. E as formas de imposição de seus paradigmas eram talvez mais diretas, menos insidiosas… ou talvez não, se considerarmos quão arraigados alguns dos conceitos criados pelo Cristianismo, por exemplo, ainda hoje se mostram em nós. Isso mesmo tendo sido “combatidos” por esse paradigma “científico”, que nos parece tão hegemônico!
    O que se destaca, na contemporaneidade, é a multiplicidade e efemeridade das possíveis identidades, que se mostram cada vez mais superficiais e “descartáveis”, verdadeiras “identidades prét-a-porter”, que são consumidas como roupas, ditadas por uma lógica muito semelhante à do mundo da moda. Hoje está na moda ter Pânico, Depressão e TDAH. Daqui a alguns anos, pode ser um “must” ter TOC, TAG, ou até um Transtorno Esquizofreniforme, quem sabe?
    De uma forma ou de outra, sempre somos “inventados” pela sociedade que, enfim, somos nós mesmos que inventamos! Podemos aceitar “passivamente” tais rótulos e moldes, ou podemos participar, questionando e inventando ainda outras maneiras de Ser e de Estar no Mundo…

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