Espiritismo e Medicina: conhecimentos que produzem modos de vida

mediunidadeOs aspectos aqui tratados são abordados a partir da discussão do texto Espiritismo e Psiquiatria no Brasil da Primeira República, de Alexander Jabert.
 

A história do Espiritismo no Brasil começa por volta de 1840 sendo difundida pelos homeopatas e os chamados “letrados”, dentre os quais médicos, advogados destacar-se-iam. Obras importantes do Espiritismo como “O Livro dos Espíritos” ao serem publicadas no Brasil já encontravam meio favorável de divulgação e entendimento, uma vez que no Rio de Janeiro e em alguns outros estados brasileiros reuniões espíritas aconteciam. No histórico da doutrina, vemos que fato de grande importância é a adesão do respeitado médico, político e católico Dr. Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti ao Espiritismo, sendo que este presidiu a Federação Espírita nos anos de 1888 -1889. Bezerra de Menezes desejava promover uma união espírita no Brasil, porém havia grande repressão tanto pela Igreja Católica quanto pela Medicina: prova disto é por ser o Estado ligado à Igreja, em 1889, no novo Código Penal (1890) o Espiritismo acabou enquadrado como transgressão à lei; em 1891 a Constituição Republicana, constituiu o Estado leigo, sem os liames que o ligavam à Igreja Católica. Como conseqüência o Espiritismo e todas as religiões praticadas no Brasil, foram favorecidas. Em 1895, Bezerra de Menezes retorna à presidência da Federação Espírita Brasileira (FEB) a qual preside por 4 anos e meio, morrendo em 11 de abril de 1900 consolidando a FEB no cenário nacional. O período de 1905 a 1930 é de grande expansão do Movimento Espírita. A partir de 1939 e por etapas, a FEB começa a montagem de uma oficina gráfica própria para a edição das obras espíritas. Francisco Cândido Xavier psicografa sua primeira obra, lançada pela FEB em 1932- “Parnaso de Além-Túmulo”. Fonte: http://www.ceallankardec.org.br/espiritismo%20no%20Brasil.htm

O Brasil é hoje o país que congrega o maior número de espíritas do mundo. Vale ressaltar que, segundo O Livro dos Espíritos “espiritualista / espiritualismo” são o oposto ao materialismo: “quem quer que acredite haver em si mesmo alguma coisa além da matéria é espiritualista; mas não se segue daí que creia na existência dos Espíritos ou em suas comunicações com o mundo visível” (KARDEC, O Livro dos Espíritos, p. 25), sendo que espíritas ou espiritistas são os adeptos à doutrina Espírita ou ao Espiritismo, tendo como “princípio as relações do mundo material com os espíritos ou seres do mundo invisível” (KARDEC, O Livro dos Espíritos, p. 25). Segundo o site Wikipédia, baseado em dados do IBGE de 2000: Em 2000, o Brasil concentrava 2,3 milhões de espíritas. Em 2005, estimava-se a existência de 10 milhões de espíritas no mundo inteiro (Encyclopaedia Britannica). Desse total, aproximadamente 3 milhões vivem no Brasil, fazendo dessa a maior nação espírita do planeta. Estima-se, porém, que o número de simpatizantes do espiritismo no Brasil gire em torno de 20 milhões. Fonte:   http://pt.wikipedia.org/wiki/Religi%C3%B5es_no_Brasil

Sendo o Brasil país no qual o espiritualismo é tão presente e os adeptos ao Espiritismo vêm crescendo vertiginosamente, não se pode deixar de lado a influência que esta doutrina têm desde que sua história “começou” neste país. Com suas particularidades de conceito, sua estruturação metodológica, o Espiritismo pauta-se segundo seu decodificador – Allan Kardec – em três pilares: ciência, religião e filosofia. Foi assim, como já percebido – o Espiritismo se fez presente mesmo dentre àqueles cuja classe renegava os preceitos Kardecistas, como os médicos (entende-se por Kardecismo o Espiritismo decodificado por Allan Kardec). Nesta conjuntura, muitos hospitais, instituições de assistencialismo desde as primeiras décadas da República contam com o apoio, via de regra com a própria direção tendo a união de Medicina e Espiritismo, já que muitos médicos aderiam à doutrina.

Partindo destas observações e, como ele mesmo disse “Por ser eu muito sortudo” o Professor Dr. Alexander Jabert produziu uma pesquisa analisando o Sanatório Espírita de Uberaba, utilizando para tanto os prontuários desde que a instituição começou a atender. Este sanatório era dirigido por médicos espíritas que usavam os métodos doutrinários para a melhora do paciente, sendo estes colocados como sessões de desobsessão, passes mediúnicos e água fluidificada. Os pacientes eram encaminhados por serem considerados loucos, seja pela família ou pela comunidade em geral. Percebe-se pela pesquisa que o Sanatório servia, entre as décadas de 1930 a 1950, como depósito de todos aqueles que eram indesejados pela sociedade. Algumas influências do pensamento foucaultiano mostram-se presentes no Hospital à medida que se vai lendo a pesquisa: docilização dos corpos, poder disciplinar. Além disso, a conotação moralizadora do Sanatório delinea-se claramente, sendo que casos de pessoas de rua ou ainda pessoas que os próprios médicos indicavam não precisar de tratamento – seja por algum desentendimento familiar, seja por incômodo social – eram internadas.

Vale considerar também que na época dos registros, Uberaba e muitas cidades mineiras não recebiam atenção por parte dos governantes, abrindo espaço para que outras instâncias ocupassem o espaço na tentativa de melhorar a vida da população, melhora esta que deixa a dúvida – após a leitura dos trechos dos prontuários – de que melhora é esta que se estava tratando? Melhora para uma parcela que se sentia incomodada, na tentativa de tentar melhorar o que foge ao ‘normal’ ao ‘padrão de normalidade’? É inegável a ajuda que Centros Espíritas prestam e prestaram em toda história do Brasil, produzindo ações assistenciais pela prática do princípio da Caridade. Contrapondo-se ao conhecimentos psiquiátricos, tal Hospital utilizava-se de métodos alheios aos da Medicina e nem por isso era descreditado pela comunidade: ao contrário, era bastante procurado. Esta mescla de Medicina e Espiritismo no tratamento da loucura refletia o que se tomava por verdade naquela época. A relação espaço-tempo vai “tomando a cara” das questões sociais, das formas de enfrentamento, da aceitação ou não de certas formas de vida… como aponta Jabert “mais do que a cura, o que a doutrina de Allan Kardec ofereceu para uma parcela considerável da sociedade brasileira do período, inclusive médicos, foi a possibilidade de produzir um novo sentido para um fenômeno de difícil compreensão, se analisado a partir dos pressupostos da medicina acadêmica, oferecendo uma inteligibilidade para a experiência do adoecimento que deveria ser enfrentada pelos enfermos e suas famílias.” (JABERT, Espiritismo e Psiquiatria no Brasil da Primeira República). 

Cremos girar aí a questão central de nosso debate: o que se tem produzido com e das práticas que escapam aos conhecimentos científicos? Não é questão de deixar de lado tudo que até aqui foi produzido cientificamente, mas sim não levá-la como verdade única e inquestionável. Até que ponto também não são produzidas novas pseudo-formas de lidar com processos de saúde e adoecimento que levam ao mesmo caminho da moralização – e por que não – segregação a partir da comparação a um padrão de normalidade? No contexto atual como estão sendo consideradas as várias possibilidades de se estar na vida, possibilidades estas que ultrapassam os padrões morais? O diálogo propõe-se a ir ainda mais além: quem significa e ressignifica espaços e posturas? Por fim, temos aqui colocada a oportunidade de pensar como se têm produzido a troca de experiências entre os vários conhecimentos que compõem, de uma forma ou de outra, os sujeitos sociais.   

        Loucura de quem?

POR JANICE DO CARMO E SARA BERTOLINI DEPIZZOL

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5 Respostas para “Espiritismo e Medicina: conhecimentos que produzem modos de vida

  1. Jeflemos, nas próprias obras de Kardec não se aponta o surgimento do Espiritismo com a publicação de O Livro dos Espíritos. Tal obra vem apenas dar visibilidade aos fenômenos que já aconteciam há certa época. Assim, quando se coloca neste texto o ano de 1840 fala-se já dos fenômenos e reuniões que aconteciam antes mesmo da veiculação das obras de Kardec. Contudo, o que se atenta no texto não é necessariamente sobre práticas espíritas, mas trazer luz às formas que têm constituído e / ou desmerecido certos modos de vida: de ser espirita, ateu, católico ou quaisquer denominações; médico, psicólogo, lixeiro, desempregado!

  2. Desculpe-me a correção mas o espiritismo surgiu em 1857 com o lançamento do “Livro dos espíritos”. Assim, não se pode afirmar que havia espiritismo no Brasil em 1840.
    Muita paz!

  3. wilma boechat de souza soares

    boa tarde
    acredito plenamente na cura através da medicação do médico com crm e a medicação do ceu, atraves dos passes mediunicos, tive essa experiencia quando meu irmão foi aidentado com fratura de cranio, eu aplicava passes mediunicos e o dr. melquiades dava -lhe as medicações, e eu levava dentro da bolsa uma medicação do centro humberto de campos, o qual laurindo, bezerra de menezes através dos passes ia sarando os buracos de vidros que esse acidente causou, ele ficou sem emmoeria e foi voltando.

  4. Creio que o diálogo entre as tendências seja o melhor caminho. Não deve haver absolutismos. Há casos em que a ciência pode explicar, curar, sanar dúvidas. Há outros em que a espiritualidade tem seu papel fundamental. Questões e casos que transcendem qualquer conhecimento e explicação científicos, mas que são aclarados e solucionados pelo espiritismo/espiritualismo.Como explicar que um tumor seja reduzido e chegue a desaparecer após correntes de orações. Fato que pode ser comprovado pela medicina (desaparcimento do tumor), mas que não pode ser explicado. Pessoas desenganadas que se curam após tratamentos espirituais e os médcos dizem simplesmente: “eu não posso explicar isso”. O homem não é só corpo. O homem não é só alma. Aqui no planeta ele é esse duo ser que oscila entre entre a razão/corpo e a emoção/sensação/espírito. Logo nem ciência nem espiritismo podem explicar/entender, sozinhos, o homem em sua integralidade em sua relação com o planeta e o cosmos. A presença/diálogo/interação das duas é essencial pra dar sentido ao que nos constitui e nos cerca. Não se deve execrar uma ou outra, mas buscar o ponto de equilíbrio entre uma e outra: a fé raciocinada preconizada pelo espiritismo kardecista qe defende o pressuposto de que nem tudo é “milagre”, mas que os “milagres” são possíveis.

  5. Achei bastante interessante a proposta do debate. Fui espírita a maior parte da minha vida e foram alguns pontos sobre “normalidade” e algumas idealizações que me fizeram pensar mais profundamente sobre assuntos religiosos, porque até então eu nunca tinha tido contato com nenhuma outra religião. Hoje em dia sou ateu.
    Lembro-me que numa época da minha vida deu na cabeça d’eu ser psiquiatra. Uma tia minha, exemplo de espírita, ficou de certa forma um pouco transtornada, porém a ideia não perdurou muito.
    Bem, na minha opinião, apesar de eu não fazer a menor noção de como é um tratamento psiquiátrico, só saber algumas coisas que vejo em filmes e li apenas Vigiar e Punir, lembro-me muito bem que apesar do espiritismo ser muito bonito, ter como ponto máximo de virtude a caridade, às vezes eu achava um pouco nocivo alguns espíritas (sim, alguns) pensarem que qualquer problema era “espiritual”. Qualquer mesmo. Certas coisas eram puro achismo e não é novidade que a linha do “normal” cabia somente para esses excluídos, porque um médium-médico pode ser facilmente confundido com um esquizofrênico, se não fossem médicos.
    Enfim, falei, falei e não falei nada.

    Abraços.

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