O papel do diagnóstico na experiência de redefinição subjetiva.

huxley

“… Para formular e exprimir o conteúdo desta sabedoria limitada, o homem inventou, e aperfeiçoa incessantemente, esses sistemas de símbolos com suas filosofias implícitas a que chamamos idiomas. Cada um de nós é, a um só tempo, beneficiário e vítima da tradição linguística dentro da qual nasceu – beneficiário, porque a língua nos permite o acesso aos conhecimentos acumulados oriundos da experiência de outras pessoas; vítima, porque isso nos leva a crer que esse saber limitado é a única sabedoria que está a nosso alcance; e isso subverte nosso senso da realidade, fazendo com que encaremos essa noção como a expressão da verdade e nossas palavras como fatos reais”.

Aldous Huxley, considerado como o pioneiro do “romance cerebral”. Trechos retirados de As Portas da Percepção, 1954.

A ciência médica ocidental, moderna e contemporânea, baseia-se na formulação de diagnósticos e classificação de entidades chamadas de “doenças”. Como nos lembra Huxley, tais classificações, criando nomes e palavras para representar nossa experiência, são ao mesmo tempo benéficas e perniciosas. Não podemos prescindir da linguagem, pois somente através dela a humanidade se constitui como tal, e o conhecimento adquirido pode ser passado adiante. Só conseguimos subir “em ombros de gigantes”, para podermos “enxergar mais longe”, através da linguagem! Mas devemos nos prevenir da armadilha de tomar o mapa pelo território, e acreditar em nossos constructos como se fossem realidades.

Um dos efeitos da “globalização” é a necessidade de padronização dessas classificações, tanto em termos administrativos e burocráticos quanto para a troca de experiências entre os representantes de diversos povos. O grande “perigo” está na hegemonia, ditada por influências políticas e, principalmente, econômicas, de determinado sistema de crenças e visão de mundo, em detrimento de outros sistemas, que poderiam ser tão ou mais adequados que aquele.

Não podemos negar os avanços e benefícios que a visão fisicalista e materialista de mundo nos trouxeram. Fazendo uma analogia, a física clássica nos trouxe a possibilidade de exploração de outros planetas, do desenvolvimento da aviação, da criação das tecnologias de informação – que hoje nos permitem explorar coisas como esse “blog” e realizar uma aula por teleconferência, diminuindo distâncias e enriquecendo nossas possibilidades. Desde as primeiras décadas do século passado, a física quântica e a relatividade demonstraram a inexatidão dos conceitos clássicos, mas ainda assim, dadas as condições usuais dos desafios que enfrentamos, a abordagem clássica continua mais adequada para sua solução, por utilizar métodos e fórmulas simplificados. Um engenheiro sabe que seus cálculos são inexatos, mas, para fins práticos, utiliza esses cálculos menos complexos para projetar um avião ou uma ponte.

Da mesma maneira, é  conveniente que mantenhamos técnicas e métodos derivados da biologia fisicalista para abordarmos problemas como pneumonias, infartos e pancreatites, uma vez que essas técnicas vêm se mostrando eficazes, mesmo que tenhamos consciência do reducionismo dessa abordagem. No entanto, quando as condições se afastam dessa conveniência, como provavelmente seja o caso das questões envolvidas na saúde mental, aquela eficiência deixa de ser evidente, requerendo uma nova postura, mais abrangente, menos reducionista. Em outras palavras, o que serve muito bem em uma situação pode ser desastroso em situações diferentes! Esse cuidado e esse discernimento são absolutamente necessários, cada vez mais, na abordagem contemporânea da saúde mental.

picasso02

Pablo Picasso: Girl Before a Mirror,1932. Oil on canvas, 64 x 51" (162.3 x 130.2 cm). The Museum of Modern Art, New York

… Quando o corpo vem à tona.

Com a potente permeação dos termos e entendimentos biomédicos no cotidiano e imaginário social, o diagnóstico adquire a função de legitimação social. Com o diagnóstico, a experiência individual adquire significados culturalmente reconhecidos, dando a elas um sentido, e aos indivíduos o sentimento de pertencimento. Legitimam-se categorias através do reconhecimento de determinado traço biológico, que muitas vezes acaba por criar um “estilo de vida”.

Aí nos colocamos em um paradoxo, pois ao mesmo tempo em que um diagnóstico possa causar estigmatização e sofrimento, sua ausência cria outro tipo de sofrer. Ou seja, para os que não conseguem um diagnóstico, muitas vezes resta a incompreensão, a solidão de uma experiência incomunicável, impossível de ser compartilhada. Ou, ainda, a culpabilização pode recair sobre este indivíduo, de forma que um diagnóstico, ao trazer a segurança das origens biológicas de seu “desajuste”, tenha uma função de redenção, de “desestigmatização”.

Então retornando Huxley, lembramos que um preço é pago pela categorização, na medida em que decodificação da experiência particular em forma de linguagem, dando-lhe um nome de uma doença, acaba por limitá-la. Mas afinal, que tipo de coisa tem a capacidade de passar pela linguagem sem sofrer qualquer tipo de tolhimento?

É certo que a linguagem é uma ferramenta indispensável. Comunicar-se é uma necessidade embutida ao fato de sermos seres sociais, e como foi colocado anteriormente, é o que possibilita a construção de pontes e aviões e, é preciso considerar, a cura de certas enfermidades. Então talvez, a contribuição deste tipo de reflexão esteja no convite de se estar atento aos efeitos da linguagem, aos mundos e realidades que são criados a partir dela.

Chegamos ao ponto, então, de perceber que a posição central que discurso científico – mais especificamente das ciências biomédicas – que hoje ocupa, acaba por torná-lo verdadeira fonte de sentido, dando elementos para que o sujeito contemporâneo de posicione diante do mundo. São as bioidentidades discutidas por Rossano Cabral Lima no programa Café Filosófico assistido em aula. (http://www.cpflcultura.com.br/post/rossano-cabral-lima-explica-bioidentidades-no-cafe-filosofico-cpfl).

Então, se o uso do diagnóstico enquanto ponto de articulação entre o geral e o particular passa inevitavelmente pela redução das experiências individuais, existe uma grande importância em se levar em conta que a utilidade dos diagnósticos não deve nunca nos cegar para os seus efeitos sociais. Se os problemas são construídos, as soluções também podem ser.


SUGESTÕES…

Filme: O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon).  O filme se passa através dos olhos de Jean-Dominique Bauby, que perdeu praticamente todos os movimentos do corpo e possui como única possibilidade de comunicação com o mundo seus movimentos do globo ocular. Demonstra o sufocante hiato que há entre as formas de se ver uma patologia para quem está “de fora” e a experiência de quem a vive. Veja a sinopse em: http://br.cinema.yahoo.com/filme/15074/oescafandroeaborboleta

POR MARINA FRANCISQUETO, NATHALIA DOMITROVIC & SÉRGIO WERNER BAUMEL

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5 Respostas para “O papel do diagnóstico na experiência de redefinição subjetiva.

  1. Luciana Caliman

    continuei pensando… nominalismo? Realismo? Nomeamos coisas que já existem? Criamos coisas ao nomearmos? Esse é um debate bem antigo… mas penso que Ian Hacking contribui de uma forma interessante para esta discussão. HACKING (1986) identifica pelo menos duas
    formas de subjetivação realizadas pelas descrições diagnósticas: 1) a nomeação de cima para
    baixo, ou seja, quando os especialistas criam uma classificação e incluem nelas as pessoas
    adequadas; 2) a pressão é exercida de baixo para cima e, neste caso, determinado comportamento
    emerge, é considerado um problema que demanda a interferência do especialista e, por assim ser,
    é incluído nos manuais classificatórios. Quase sempre essas formas de subjetivação são
    inseparáveis e as classificações patológicas emergem junto com as existências que as
    possibilitam. O autor chama seu ponto de vista de nominalismo dinâmico em contraposição ao nominalismo puro. De acordo
    com Hacking, uma realidade subjetiva pode emergir na mesma época em que é enquadrada em uma tipologia, mas não
    é somente essa nomeação que possibilita sua produção. Outros fatores estão presentes. No entanto, a tipologia é uma
    tecnologia subjetiva. A classificação diagnóstica e seus métodos de identificação e tratamento não criam sozinhas a
    condição mórbida, mas participam ativamente de sua constituição e modificação…
    É isso…

    • Sérgio Werner Baumel

      Talvez em economia, como colocado pelo nosso amigo Victor, o nominalismo seja ainda mais contundente, uma vez que a influência nas ações político-econômicas é provavelmente mais direta e imediata.
      De acordo com o pensamento expresso por Huxley (acima), não se trata de nominalismoXrealismo, mas do erro inerente e inescapável de redução da realidade, ao nomeá-la, e da necessidade de percebermos esse viés, para podermos manter – ainda que necessariamente utilizando nossas classificações e nomeações – uma perspectiva mais ampla e “holística” em nossa atuação.
      Quanto à existência de uma realidade independente de nossa observação, ou da criação da realidade a partir de nossa própria consciência, é um outro assunto, que daria toda uma outra disciplina…

  2. Interessante esta discussão levantada.
    O reducionismo que imbutido no diagnóstico médico não é restrito aos “profissionais da saúde”, pois observamos esse tipo de tratamento em diversos campos científicos.
    A exemplo de um economista nobelista, Milton Friedman, que disse: “se a realidade não se adapta aos modelos, pior para a realidade” , vemos o que um tipo de visão extremamente reducionista pode nos trazer.
    Políticas públicas são tomadas a partir dos diagnósticos advindos desses modelos elaborados e legitimesdos por economistas mundialmente famosos. Não precisamos ir muito longe para ver que, a realidade produzida por esses modelos, está muito longe do mundo ideal que eles descrevem.

    Victor (formado recentemente em Ciências Econômicas, pela UFES)

  3. Mais do que informação do profissional de saúde para o paciente, é uma informação desse profissional para si mesmo!!! Nomear é sempre, pelo menos em parte, aceitar certo sistema de crenças e certa perspectiva do universo…
    Sérgio

  4. Muito bacana o post! :)
    Depois de lê-lo, eu fiquei aqui pensando sobre o que Deleuze diz acerca da informação (em O Ato de Criação, palestra de 1987). Segundo o autor, informar é fazer circular uma palavra de ordem. Assim, quando nos informam alguma coisa, nos dizem o que julgam que devemos crer. E Deleuze acrescenta: “não nos pedem para crer, mas para nos comportar como se crêssemos”.

    Será que, a partir dessa discussão, podemos pensar o diagnóstico como uma informação passada de um profissional da saúde para um paciente?

    Viajei na maionese?

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