O sujeito cerebral.

sujeito cerebralChamamos de “sujeito cerebral” a figura antropológica que incorpora a crença de que os seres humanos são essencialmente reduzíveis aos seus cérebros. Há, portanto, nessa neuro-visão de mundo uma tentativa de definir identidades e diversidades humanas a partir da decodificação das funções cerebrais. O avanço das tecnologias na área da neurociência é apenas uma das variáveis que contribuíram para o fortalecimento dessa visão do sujeito que não é nova, mas que atualmente ganhou status de verdade em algumas culturas do mundo. Contudo, o sujeito cerebral é uma construção coletiva definida no pacto social dependendo dessas diferenças culturais, econômicas, políticas, afetivas que configuram o cenário cultural de cada lugar. Com isso, a antropologia nos ajuda a entender que esta visão biomédica atual, que se pretende universal, não é comprada por todos da forma que ela é vendida e massificada pela indústria farmacêutica. Fazendo esta reflexão antropológica conseguimos escapar do fatalismo e da busca de um culpado para a produção do sujeito cerebral e nos inserimos num processo de responsabilização em que analisamos essa transformação num contexto mais amplo. São inúmeros pontos que convergem nessa perspectiva biologizante como “o fortalecimento do cientificismo (crença ideológica na superioridade do discurso cientifico sobre os demais), o apagamento da política e das praticas sociais que consideravam sujeito como autor de sua existência individual e coletiva, a emergência de uma cultura da objetividade que valoriza a imagem em detrimento da palavra e da interpretação, o deslocamento das regras de socialização fundadas na interioridade sentimental em direção a uma cultura da subjetividade somática, a explosão da tecnociência, das biotecnologias e do consumo intensivo de produtos e serviços voltados para a otimização do desempenho biológico como correlato das práticas de si, e assim por diante.” (ORTEGA, BEZERRA, JUL/2006).

Uma discussão interessante levantada pelo filósofo Francisco Ortega e pelo antropólogo Rogério Lopes Azize é como e porque a figura antropológica do sujeito cerebral está se difundindo no público leigo? Porque esse processo é dado como óbvio? Porque é um discurso tão sedutor?

Essa figura antropológica surge desde século XIX e ganha força no final do século XX, acompanhando o avanço das neurociências e das tecnologias de visualização do cérebro, que foi essencial para que o cérebro deixasse de ser invisível ausente e inapreensível e se tornasse acessível para o público leigo dando uma ilusão de verdade objetiva e indiscutível que mascara a possibilidade de manipulação dessas imagens cerebrais.  

manu e bruna II

“Susan Aldworth a partir de sua experiência com a medicalização de seu próprio corpo, apropria-se de imagens do cérebro, desenvolvendo seu trabalho através de residências artísticas em hospitais na Inglaterra. O  trabalho da artista plástica britânica com  imagens do cérebro representa um engajamento com questões fundamentais de nosso regimem biopolítico contemporâneo. As suas obras questionam a promessa de transparência e acesso visual imediato ao cérebro, tentando dar uma resposta à pesquisa dos neurocientistas e psicólogos cognitivos que usam neuroimagem para explorar a relação entre estruturas físicas e funções mentais, as implicações éticas de localizar a identidade no cérebro, entre outros. Aldworth problematiza o que a cultura popular assume como premissa quando fala do cérebro, isto é, a localização da identidade pessoal no cérebro, o sujeito cerebral. Obras como “Cogito ergo sum” nos obrigam a refletir acerca do que estamos vendo quando olhamos para uma imagem do cérebro. Num texto incluído dentro de um de seus trabalhos podemos ler “Você pode olhar no meu cérebro mas nunca me encontrará” e em outro aparece, ‘Estou tanto dentro de minha cabeça como fora do meu cérebro’.” (ORTEGA, 2008) 

Outro agente importante na popularização desse fisicalismo da subjetividade dos sujeitos é a massificação desses discursos através da mídia que vende essa neuro-visão de mundo e ajudando a configurar novas identidades e práticas individuais a partir dessas novas verdades, que não são boas nem ruins em si mesmo, mas que trazem no “entre” desses discursos questões que precisam ser problematizadas, como os valores embutidos nesses jogo de forças que conduzem a um certo modo de pensar a vida e a qualidade dessa vida. Entendendo a produção desse sujeito cerebral como coletiva, não podemos demonizar e culpabilizar um ator social desse processo, mas pensar que esse discurso se torna tão sedutor porque serve de “consolo para aqueles que têm “dificuldade de encarar o mundo de decisão e ação que se edificou sobre as ruínas da sociedade da disciplina.” Fugindo da culpabilização vamos em direção a responsabilização, compreendendo que diversas variáveis interferem na produção do que se é (mundo compartilhado).

 A partir das discussões sobre essa temática, tanto na literatura quanto no debate em sala de aula, é possível refletir sobre inúmeros impactos que tal leitura contemporânea do que é ser humano tem produzido socialmente. Entretanto um aspecto importante para nós suscitada a partir dos pensamentos e indagações em torno do “sujeito cerebral”, foi a importância e a necessidade que vemos, principalmente no exercício como profissionais psi, de estarmos constantemente desnaturalizando discursos e práticas que são propostas como dogmas totalizantes e reducionistas. O cuidado deve ser sempre na direção de não psicologizarmos o sujeito, eliminando qualquer abertura há outros saberes e modos de vida, e nem biologizarmos o mesmo, tomando o todo (homem como uma rede complexa de atravessamentos) por uma única parte (atualmente, o cérebro). 

“Essa negação do outro, da vida social, do mundo compartilhado, é uma grande perda ética nesse tipo de visão da identidade.” Francisco Ortega

Sugestões de leitura:

Imagens médicas entre a arte e a ciência: Relações e trocas. Rosana Horio Monteiro. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/cep/rosana_monteiro.htm.

– Café Filosófico com Francisco Ortega. O sujeito cerebral: identidades, neurociências.

– Vídeo: http://www.pepas.org/multimidia/multimidia_videos_aldworth.html

Texto por BRUNA COSME BONGIOVANI & MANUELLE TOSCANO RIBEIRO

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4 Respostas para “O sujeito cerebral.

  1. E os defensores do “devir” aplicam a causalidade quando esta lhes é favorável…
    Quando o “produzido” é algo que nos interessa.

    Interessante, este clima pós-moderno, de asco a tecnologia, sem perceber a verdade óbvia que tecnologias são instrumentos… simplesmente

    Realmente somos assim, abraçamos uma teoria seja por qualquer motivo, e posteriormente passamos a viver tentando refutar as teorias que são incompatíveis e incoerentes com a “nossa”.

    O fato é que o a ciência, o método científico, longe de ser infalível, como o são teorias ad hoc e religiões, ainda é a melhor forma que já encontramos até o momento para lidar com a existência…
    Não, não estou falando de problemas existênciais “profundos”, estes são nada mais que superflúos, estou falando da vida cotidiana, do garantir a própria sobrevivência…
    Nesse momento, teorias rebuscadas de teorias francófonos ficam de lado em favor do empirismo “anglo-saxão”…

    O mais interessante é que todo sujeito em seu discurso, mesmo aqueles que se consideram “questionadores”, partem de pressupostos de verdade, do acerto…
    Gostaria de ver um discurso pautado pelo pressuposto do erro… da possibilidade de estar errado tomada seriamente, não como uma simples pergunta, para salvar as aparências.

    Verdade, a velha verdade, conceito (quase) sempre questionado (ainda bem! o que serão senão da epistemologia?!) mas quase nunca percebido como atitude implícita em todas nossas falas e na vida cotidiana…

    Afinal quem suportaria viver a dúvida, a incerteza, 24 horas por dia?

    Talvez não devessemos tentar saber, se o cérebro é tudo isso, mas se nós somos tudo isso…
    Uma coisa é ter valor, outra é fantasiar a própria existência…

  2. Eu vi o vídeo, e tb fui atrása do trabalho da Susan Aldworth… muito bom!!!!!!
    Ontem, no “Fantásmico”, teve uma reportagem bastante característica disso que estamos discutindo, sobre as pessoas que comem durante a noite, e no dia seguinte dizem não se lembrar de nada… lá pelas tantas, a Globo mostra imagens de CG, mostrando e “demonstrando” o “defeito” que está no cérebro dessas pessoas… Impressiaonate!!!!…

  3. Luciana Caliman

    Pois é, as imagens são mais um dos atores sociais, dentre tantos outros, que nos formam e conformam, interferindo na maneira como pensamos o que somos e, mais ainda, no COMO intervimos em nossas vidas… e, sem dúvida, elas são fundamentais na construção do sentimento e da idéia que somos nossos cérebros, que nossos sofrimentos feitos patologias estão escondidos em alguma parte deste orgão nebuloso que começa a ser revelado – o cérebro. Mas o legal é que, quando olhamos para estas mesmas imagens, com um olhar mas analítico e, diríamos, mais artístico, percebemos o quanto há de invenção e construção por trás de tais imagens, que elas não são fotografias e não simplesmente REPRESENTAM a realidade, mas a PRODUZEM! Vale a pena entrar na pagina do PEPAS e ver o vídeo!

  4. Adorei as imagens!!! O que me faz refletir sobre como nos deixamos iludir pelo visual, esquecendo-nos de considerar todos os outros 11 (ou 12, se considerarmos a PES) sentidos!!!
    Eu sempre me considerei visual, e recentemente tive a surpresa de perceber que a visão é apenas o meu segundo canal preferencial, só perdendo para a audição…
    Ou seja, quando achamos que sabemos quem somos, pode ter certeza, estamos profundamente enganados!!!!
    bjks a tod@s

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